Datas Comemorativas – FOLCLORE

Quando e onde apareceu a palavra Folclore?

Fonte: Folclore Brasileiro

No dia 22 de agosto de 1846, em Londres, foi criada pelo arqueólogo inglês, William John Thoms que a propôs à revista ‘The Atheneum’, para designar os registros dos cantos, das narrativas, dos costumes e usos dos tempos antigos. Thoms escolheu duas velhas raízes saxônicas: ‘Folk’, que significa povo, e ‘Lore’, saber formando assim ‘Folk-lore’, sabedoria do povo.

Com o decorrer do tempo, as duas palavras foram grafadas sem o hífen, formando uma só: Folklore, como foi usada no Brasil, até que a reforma ortográfica suprimiu a letra ‘K’, substituída, no caso, pela letra ‘C’, derivando a forma Folclore.

O que é o povo?

A palavra povo, que usamos a toda hora, precisa ser bem compreendida, pois tem diversos sentidos, de que salientaremos os principais:
Povo é a gente que, embora, de várias raças, possui um modo de vida comum e habita um mesmo território. Confunde-se com a idéia de nação. Assim nós falamos do povo brasileiro, do povo francês ou do povo alemão. Assim dizemos que os deputados são os representantes do povo. Povo pode ser também uma aglomeração de gente, quando se diz que havia muito povo numa festa ou numa manifestação.
E, por fim, povo é a gente que pertence às camadas menos favorecidas, econômica, social e culturalmente, da sociedade, por exemplo, quando se diz que o povo fala errado. Neste último sentido, é que entendemos povo (em inglês folk) na concepção do folclore, a sabedoria do povo.
E a expressão se usa também para indicar os grupos em estado mais simples e natural, de vida rudimentar. Os nossos índios, por exemplo. Também estes nos interessam, pois muitos autores os fazem portadores de Folclore.

O que é sabedoria do povo?

É tudo quanto o povo faz, pensa e sente.
É a cultura do povo, cultura de folk, variável em suas manifestações conforme a herança de conhecimentos transmitida pelas gerações anteriores.
É o comportamento, a atitude do homem diante de um fato, de uma pessoa, de um animal.
Esse comportamento resulta de um conjunto de crenças e práticas que se ligam às atividades, às técnicas, às normas sociais.

Qual é o conteúdo da sabedoria do povo?

O Folclore, sendo a sabedoria do povo, a cultura do povo, abrange todos os campos da vida humana, incluindo seus mitos e lendas, suas estórias, parlendas, adivinhas e provérbios, seus contos e encantamentos, suas juras, pregões, xingamentos e gestos, e também suas danças, seus teatros, suas artes, seus instrumentos e cantigas, suas festas tradicionais, suas crenças e crendices, sua magia, seus tabus e superstições, sua medicina, seus rezadores e benzedores, suas trovas, desafios e romances, suas orações, seus brinquedos e seus jogos, suas técnicas populares, suas rendas, bordados, trançados e cestarias, e sua cozinha.

Onde está o Folclore?

Está e se desenvolve entre o povo e nas sociedades naturais, como entre índios, esquimós, pigmeus, aborígines. Mas não permanece nesses meios, sobe também A sociedade, influi nas camadas eruditas e ainda se projeta, como inspiração, nas letras e nas artes.

Como influência do Folclore nas camadas eruditas, podemos citar, dentre outras manifestações, as superstições (pessoais ou de classes, como as dos jogadores – de futebol e de carta – motoristas. aviadores, etc.), ora praticadas publicamente, ora em reserva. Entre as que não impõe qualquer pejo ao portador, destacamos o horror ao número 13, às sextas-feiras, ao gato preto, à coruja, o bater em madeira quando nomeadas certas pessoas que acredita dêem azar, fazer figa contra mau-olhado, entrar com o pé direito na sala de aula em dia de exame, em avião, etc. Afora as superstições, que são incontáveis, vicejam francamente na sociedade práticas religiosas de cunho fetichista (homenagens à Iemanjá, doces de São Cosme e Damião e uso intensivo de talismãs e amuletos).

Como fonte inspiradora, têm o Folclore vivificado obras literárias e artísticas. O movimento da revalorização da cultura popular teve início no começo do século passado, com o romantismo, e, assim, velhos temas musicais motivaram sinfonias e concertos, e as estórias, ou usos e costumes, incorporados a romances e ensaios. Além do emprego desses contos e melodias na literatura e na música, os estudiosos pesquisaram as suas raízes, os caminhos e meios de transmissão, chegando, por vezes, a marcar como seus antepassados raças muito antigas e já hoje extintas.

No Brasil, o aproveitamento do Folclore começou no século passado em obras de José de Alencar e Gonçalves Dias, na música de Alexandre Levy e Alberto Napomuceno, que brilhantes nomes do século XX iriam continuar. Também as artes plásticas, o teatro e cinema se voltam para essa fonte de beleza inesgotável.

Como saber se um fato é folclore?

O fato folclórico tem uma série de características próprias:

A) A primeira é o anonimato, isto é, não tem autor conhecido. Naturalmente tudo tem um autor, foi feito por alguém, pela primeira vez, mas o nome desse alguém, desse autor, se perdeu através dos tempos, despersonalizando-se, assim, a autoria. A estória de Dona Baratinha que se considerou muito rica ao encontrar um vintém e, por isso, saiu à procura de quem com ela desejasse casar-se – nos parece, pelos seus elementos, essencialmente brasileira, pois o noivo é o nosso conhecido João Ratão, que no dia do casório, por gula, morre num caldeirão que continha nossa feijoada. Mas já havia sido registrada em uma coleção de estórias da Índia, há quase dois mil anos. Quem foi seu autor? Ninguém sabe. E quem inventou os brinquedos de roda com suas cantigas, as danças, as adivinhas, as trovas, os ditados? Quem disse, pela primeira vez: quem quer vai, quem não quer manda?

B) A segunda característica é a aceitação coletiva, é a aceitação do fato pelo povo e é essa aceitação que despersonaliza o autor. O povo, aceitando o fato, toma-o para si, considerando-o como seu, e o modifica e o transforma, dando origem a inúmeras variantes. Assim, uma estória é contada de várias maneiras, uma cantiga tem trechos diferentes na melodia, os acontecimentos são alterados e o próprio povo diz: “Quem conta um conto acrescenta um ponto”. A mesma coisa acontece com as danças, os teatros, a técnica. Tudo pode ser modificado, porque o povo dança, mas suas danças não têm regulamento, não são codificadas, tanto pode o conjunto de dançadores dar três voltas como apenas uma, a indumentária tanto pode ser rica e colorida como simples e ingênua. Há, contudo, uma certa estrutura que determina aquela dança, aquela estória, aquela indumentária, aquela cerâmica e as modificações não invalidam o modelo.

C) A terceira característica é a transmissão oral, isto é, a que se faz de boca em boca, pois os antigos não dispunham de outros meios de comunicação. Não havia imprensa, não havia, portanto, nem livros, nem jornais, todos os conhecimentos eram transmitidos oralmente. Essa forma de transmissão, a oral, ainda persiste em meios primitivos e no interior de nosso país, nos povoados distantes, nas vilazinhas esquecidas, nos bairros longínquos. Só se aprende, nessas circunstâncias, por ouvir dizer e, no que se refere à técnica, feitura de aparelhos rudimentares, de rendas, de trançados, se aprende também por imitação, dispensado, muitas vezes, o ensinamento oral.

Na transmissão oral vive toda a história daquele grupo, daquele povo, e, em qualquer das modalidades particulares (lendas, contos com preceitos morais e normas de procedimento, narrativas imaginosas sobre a natureza e o sobrenatural, cantos, provérbios, parlendas, adivinhas, brinquedos, poesia, etc.) em conexão com o objetivo, facilita a apreensão e a conservação. A aquisição do conhecimento dá a cada qual a possibilidade de difundi-lo, de propagá-lo, cabendo, evidentemente, aos bem dotados, a responsabilidade maior nas cantorias, nas danças e nas técnicas, que se fixam pela prática freqüente, comunicação do exemplo e imitação espontânea.

D) A quarta característica é a tradicionalidade, não no sentido de um tradicional acabado, perimido, coisa passada, sem vida, mas de uma força de coesão interna que define o modelo do conglomerado, da região, do povo, e lhe dá uma unidade. Sem se poderem valer de outros expedientes, como professores, escolas, imprensa, as pessoas do povo se valem da tradição, veiculada pela transmissão oral, a fim de resolver suas situações, buscando na lição vinda do passado o que precisam saber no presente, já que suas possibilidades as endereçam mais A sabedoria constituída que à inventiva. A tradição, que é o modo vivo e atual pelo qual se transmitem os conhecimentos, não ensinados na escola, rege todo o saber popular, seja o desenvolvimento de um jogo, de uma dança, de uma técnica, seja uma atitude ante qualquer agente que exija definição de comportamento.

Essa força, que age no sentido de garantir a permanência dos valores de uma cultura, não segue seu destino nem cumpre sua missão sem lutas e empecilhos. Elementos de outras culturas a submetem a pressão, e isto provém de não ser absolutamente fechado o campo da cultura, antes, é um campo aberto onde se agitam as influências do próprio meio e as externas. Somente a inércia poderá retardar essas modificações, mas a cultura é viva, é dinâmica, e sofre evidentemente, impacto em todos os setores.

E) A quinta característica é a funcionalidade. Tudo quanto o povo faz tem uma razão, um destino, uma função. O povo nada realiza sem motivo, sem determinante estritamente ligada a um comportamento, a uma norma psico-religiosa-social, cujas origens talvez se perderam nos tempos. A dança, por exemplo, não é apenas uma repetição de gestos com feição harmoniosa.

Inicialmente teria tido um destino, seja decorrente de rito religioso, seja de cerimônia do grupo, e, assim, deve ser vista como pane de um todo, da cultura do povo, é uma expressão a ser analisada como integrante de um contexto.
Por que o povo canta? Canta para rezar, canta para adormecer a criança, canta para trabalhar, canta para festejar as colheitas e os acontecimentos, canta para ajudar a morrer e para enterrar seus mortos. Mas não dão concertos, recitais, audições como os eruditos; as suas festas têm épocas marcadas, com seus cantos e danças próprias. Assim, o Natal é comemorado com grupos de Pastorinhas, Bailes Pastoris e Folias de Reis; o Bumba-meu-boi aparece em datas distintas, variando conforme a região; Congadas e Moçambiques louvam a Senhora do Rosário e São Benedito, e ainda as Danças de São Gonçalo e de Santa Cruz, com destino certo.

Devemos estudar o folclore?

Sim, o estudo do Folclore é o estudo da própria alma de um país, é o estudo do modo de ser da gente do povo, das suas maneiras de pensar, de agir e de sentir, é o estudo da feição nacional nas suas bases mais profundas e mais características. É a cultura de folk, é a mentalidade do povo, é a lição que nos vêm transmitida através das gerações, como todo saber empírico das gentes humildes que lastreiam a formação da nacionalidade, para a qual, no Brasil, contribuíram portugueses, índios e negros, cada um com seus usos, práticas e costumes.

Essa sabedoria não é uniforme, não é igual em todo o território, variando de um Estado para outro, pois sofre o impacto das heranças étnicas (As quais se juntam as contribuições de outras raças vindas com as correntes imigratórias) e das influências do meio, consideradas as exigências que as condições fisiográficas impõem ao homem, imprimindo normas e práticas indispensáveis à sua sobrevivência. Variam, assim, os modos de ser das gentes da beira-mar, do planalto, da montanha e do sertão, quer nos tipos de moradia, de alimentação, de técnica, quer na feição espiritual. Não se viverá ao sul do país com o temor do boto, nem ao centro sob o encanto da sereia, nem na praia se cultuará o Rei da Mata. O lavrador se cercará de crendices e superstições para o bom êxito de suas lavouras, outras serão as do pescador, do boiadeiro, do tropeiro, do garimpeiro.

Se não conhecemos a mentalidade do povo, toda reforma ou regulamentação em qualquer setor da vida humana será vazia e sem possibilidade de êxito. No campo da medicina, da religião, da agricultura, da técnica, ou em qualquer outro, a sementeira germinará se anteriormente o terreno foi estudado, conhecido, preparado.

Posição do folclore como ciência.

Não sendo esta mesa redonda destinada exclusivamente a especialistas, mas, ao contrário, aberta a todos quantos desejarem dialogar conosco sobre Cultura Popular, parece-nos que a primeira tarefa a enfrentar será colocar os problemas nos seus devidos lugares. Arrumar as idéias. Porque, na verdade, há um grande equivoco nacional em torno do que seja folclore, sua importância, utilidade, e posição como ciência.
Pensamos que, só assim, partindo de uma base objetiva e fecunda, será possível atingirmos entendimento maior sobre alguns aspectos que vão ser hoje aqui debatidos e examinados.

A velha palavra Folk-lore, que William John Thoms criou no século passado para designar o estudo das antiguidades populares, desgastou-se, corrompeu-se, adulterou-se através do tempo e do espaço. No Brasil, principalmente, a palavra folclore prostituiu-se. Isto é, chegou ao fim de sua vida mundana e inconseqüente.

Folclore, para a grande maioria brasileira, inclusive intelectuais de outras áreas de estudo, é hoje sinônimo de curiosidade, passatempo, coisa pitoresca, banalidade, sem-vergonhice. E essa distorção se justifica, de certa forma, por se falar demais sobre vários aspectos da cultura popular e muito pouco sobre folclore como ciência. Observe a nossa imprensa sensacionalista, a televisão, o rádio e o cinema. Todo mundo faz folclore. Todo mundo é folclorista. L. C. Cascudo passou cinqüenta anos estudando e escrevendo livros para ser chamado de folclorista. Entretanto, qualquer jovem que saiba acompanhar modinhas ao violão e recitar poemas matutos já se considera folclorista.

Cremos que compete aos professores, aos especialistas, aos estudiosos responsáveis desencadear uma campanha de esclarecimento sobre a importância do folclore como ciência. E é nesse sentido a nossa modesta exposição de hoje.

Não se discute mais que a posição do Folclore, como ciência, é na grande árvore da Antropologia – a ciência do Homem e da Cultura. Mais precisamente naquele ramo da Antropologia que estuda as criações humanas, isto é, a Cultura. Por isso, a sua posição exata é ao lado de outros aspectos da Antropologia Cultural, como a Arqueologia, a Antropologia Social, a Lingüística etc. É assim que Clayde Kluckhohn situa o Folclore, embora o restringindo à coleta e análise dos dramas, músicas e lendas populares. Seu campo, todavia, é bem mais vasto, atingindo toda a massa de conhecimento que recebemos oralmente dos nossos antepassados.

Dizia um escritor, com toda propriedade, que uma parte de nós mesmos vive na idade moderna, enquanto a outra parte vive nos tempos medievais ou mesmo grego. Com isso, ele queria significar que todos nós carregamos um acervo imenso de conhecimentos, costumes, usos, idéias legados pelos antigos, desde os elos mais remotos da vida humana. E é a esse acervo que chamamos de Folclore, embora outros autores prefiram a denominação de Cultura Popular.

Todavia, se o Folclore é um ramo da Antropologia, o seu estudo tem de estar ligado rigorosamente à etnia brasileira e à formação de nossa cultura. Sem o seguro conhecimento da formação do homem e da cultura portuguesa, por exemplo, não se pode entender a cultura brasileira. Como igualmente não se entende o folclore brasileiro sem o estudo dos povos sudaneses e bantos. E nem a contribuição indígena à nossa cultura sem os fundamentos da indiologia americana e brasileira.

O folclore do norte e do nordeste brasileiro, por exemplo, só se explica através da contribuição destes três elementos: o português, o negro e o índio. Como no sul do País, sem o conhecimento desses mesmos grupos e, mais, dos colonizadores italianos, alemães, japoneses, sírio-libaneses e outros, nada se pode entender do folclore brasileiro naquela área.

Vejam então como é complexo o problema: A cultura popular está diretamente vinculada ao estudo profundo da cultura de todos esses elementos formadores de nossa nacionalidade.

Dai a conclusão a que desejamos chegar e para a qual chamamos a atenção dos estudiosos presentes: Ninguém pode ser considerado folclorista sem ter tido antes uma rigorosa formação como antropólogo cultural. O folclore é uma especialização dentro do vasto campo da Antropologia. Não se entenderia, por exemplo, que alguém se intitulasse oftalmologista sem ter antes se formado em Medicina.

No dia em que os homens responsáveis chegarem a um entendimento maior, a cultura popular brasileira será encarada com muito maior seriedade e os folcloristas de rádio e TV serão banidos para sempre. Amém!

Como pode o folclore ser utilizado na escola?

Muitas ciências e disciplinas e artes estão intensamente ligadas ao Folclore, e, assim, a escola primária dele pode e deve servir-se, como excelente meio de transmissão de conhecimentos, ao mesmo tempo em que revelador da cultura do povo.

A sua maior aplicação será no setor de Linguagem oral e escrita, com a amplitude dos contos, nos objetivos éticos, morais e estéticos a serem por meio deles atingidos. A Criança é conduzida a um mundo de fantasias, no qual o espírito repousa e se encanta. O conto é um veiculo educativo, usado nas mais antigas civilizações e do mesmo modo entre os povos naturais, para realce dos feitos dos seus heróis e das virtudes de seus antepassados. Os provérbios, que representam uma condensação de sabedoria, as adivinhas, que são testes de conhecimentos, as parlendas, os jogos, os brinquedos, recreiam, estimulam as relações sociais e reafirmam a unidade grupal.

Na História do Brasil, na Geografia e nas Ciências, as lendas relativas à escravidão, mineração, bandeiras, heróis, os tipos brasileiros e seus traços culturais, os ambientes em que vivem, as serras e lagoas e mares com seus mitos, animais, vegetais e minerais.

Em Matemática, inúmeras fórmulas e outras contribuições, em parlendas ou poesias e jogos; no Desenho, Trabalhos Manuais, Artes e Artesanatos, o uso do material local, com revalorização de seus usos e seus motivos típicos ornamentais; na Música, as nossas melodias, ritmo e instrumentos; ainda a dança e o teatro, com apresentações da beleza que possuímos nesses campos.

O aproveitamento do Folclore no ensino fundamental é das mais válidas contribuições, pela intenção formativa e pelo caráter de nacionalidade que imprime.

No ensino médio e no secundário, passa o Folclore ao plano informativo, numa prospecção profunda da cultura, que levará à conclusão consciente de que “toda cultura tem uma dignidade e um valor que devem ser respeitados e protegidos; em sua fecunda variedade, em sua diversidade e pela influência recíproca que exercem uma sobre as outras, todas as culturas fazem pane do patrimônio comum da humanidade”.

Na Universidade, o Folclore deve ser estudado como disciplina autônoma, através de suas implicações antropológicas, sociais, psicológicas e estéticas, para o conhecimento, e profundidade, da cultura popular.

No Brasil, é antiga a lição do aproveitamento do Folclore no ensino. Já nas primeiras décadas de nossa vida, os jesuítas o aplicaram com extrema sabedoria na catequese, utilizando as danças e os cantos indígenas, e encenando seus autos. Anchieta, nosso primeiro mestre, nos legou esse exemplo, nos campos de Piratininga.

Provérbios

Quem canta um conto lhe acrescenta um ponto’.
‘Quem diz o que quer, ouve o que não quer’.
‘Tanto morre o papa, como a que não tem capa’.
‘Filha de peixe sabe nadar’.
‘Mais fere a má palavra, que espada afiada’.
‘Amigo de bom tempo, muda-se com o vento’.
‘Homem honrado, antes morto que injuriado’.
‘Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita’.
‘Quem boa cama fizer, nela se deitará’.
‘A fome é a melhor cozinheira’.
‘Não há pior cego que aquele que não quer ver’.
‘De grão em grão a galinha enche a papo’.
‘Há males que vem para bem’.
‘Quando a esmola é demais o santo desconfia’.
‘Casa de ferreiro, espeto de pau’.
‘Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe’.
‘Quem desdenha quer comprar’.
‘Santo de casa não faz milagre’.
‘Deus escreve direito por linhas tortas’.
‘A corda rebenta sempre do lado mais fraco’.
‘A ocasião faz o ladrão’. ‘Cesteiro que faz um cesto faz um cento’.
‘Amor com amor se paga’.
‘Só se atiram pedras em árvores que dão fruto’.
‘Quem vê cara não vê coração’.
‘Ri o roto do esfarrapado’.
‘Cada um puxa a brasa para sua sardinha’.
‘Quem dá aos pobres empresta a Deus’.
‘Quem dá o que tem a pedir vem’.
‘Cria fama e deita-te na cama’.
‘Quem ri por último, ri melhor’.
‘Não faças aos outros o que não queres que te façam’, etc.

Antiprovérbios

A fome é a maior desgraça. (A fome é a melhor cozinheira);
De grão em grão a galinha se cansa. (De grão em grão a galinha enche o papo);
Quando a esmola é demais, o santo gosta. (Quando a esmola é demais, a santo desconfia);
Cesteiro que faz um cesto é preguiçoso. (Cesteiro que faz um cesto, faz um cento); Quem dá aos pobres cai na miséria. (Quem dá aos pobres empresta a Deus);
Quem ri por último é retardado. (Quem ri par último, ri melhor);
Quem cedo madruga, fica com sono. (Quem cedo madruga, Deus ajuda);
Após a tempestade vem os estragos. (Após a tempestade vem a bonança);
Quem o feio ama, não tem bom gosto. (Quem a feia ama, bonito lhe parece);
Mais vale um pássaro na panela que dois na mão. (Mais vale um pássaro na mão que dais voando);
Em boca fechada não entra comida. (Em boca fechada não entra mosquito).

LINGUAGEM CRIPTOLÓGICA

Linguagem do Gê

1) (gê) O (gê) ho (gê) mem (gê) é (gê) ve (gê) lho.
O homem é velho.

Linguagem do Pê

2) (pê) Deus (pê) é (pê) a (pê) ver (pê) da (pê) de.
Deus é a verdade.

Linguagem do Cê

3) (cê) Vo (cê) cê (cê) gos (cê) tou (cê) da (cê) mú (cê) si (cê) ca?
Você gostou da música?

Linguagem do Guê

4) (guê) 0 (guê) Bra (guê) sil (guê) 6 (guê) gran (guê) de.
O Brasil é grande.

Linguagem do Pô

5) (pô) O (pô) Se (pô) nhor (pô) é (pô) meu (pô) pas (pô) tor.
O Senhor é meu pastor.
Linguagem do Rê

6) (rê) Vo (rê) cê (rê) an (rê) da (rê) a (rê) pé?
Você anda a pé?

Linguagem do Bê

7) (bê) Os (bê) pá (bê) ssa (bê) ros (bê) vo (bê) am.
Os pássaros voam.

Linguagem do Tô

8) (tô) A (tô) u (tô) ni (tô) ão (to) faz (tô) a (tô) for (tô) ça.
A união faz a força.

Linguagem do Xis

9) (xis) As (xis) cri (xis) an (xis) ças (xis) são (xis) de (xis) Deus.
As crianças são de Deus.

B) Vocábulos – obstáculos, monossilábicos, colocados depois das sílabas da palavra.

Linguagem do “Guê” seguido dos sons vocálicos da sílaba precedente.

10) Vo (gô) cê (guê) é (guê) bra (gá) si (gui) lei (guei) ro (gô)?
Você é brasileiro?

Linguagem do “Pê” seguido dos sons vocálicos da sílaba precedente.

11) Vo (pô) cê (pê) es (pês) tá (pá) a (pá) le (pé) gre (pê).
Você está alegre.

Linguagem do Quê

12) Gos (quê) to (quê) do (quê) teu (quê) so (quê) rri (quê) so (quê).
Gosto do teu sorriso.

Linguagem do Pê

13) Deus (pô) é (pô) o (pô) ca (pô) mi (pô) nho (pô).
Deus é o caminho.

Linguagem do Guei

14) A (guei) la (guei) ran (guei) ja (guei) é (guei) do (guei) ce (guei).
A laranja é doce.

C) Vocábulos – obstáculos, dissilábicos, colocados antes das sílabas do palavra.
Linguagem do Faim

15) (faim) As (faim) flo (faim) res (faim) são (faim) be (faim) las.
As flores são belas.

Linguagem do Menê

16) (menê) As (menê) ro (menê) sas (menê) são (menê) per (menê) fu (menê) ma (menê) das.
As rosas são perfumadas.

Linguagem do Reguê

17) (reguê) Os (reguê) li (reguê) vros (reguê) são (reguê) no (reguê) ssos (reguê) a (regu6) mi (reguê) gos.
Os livros são nossos amigos.

Linguagem do Teco

18) (teco) Ma (teco) ca (teco) co (teco) ve (teco) lho (teco) não (teco) me (teco) te (teco) a (teco) mão (teco) em (teco) cum (teco) bu (teco) ca.
Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

Linguagem do Geri

19) (geri) De (geri) ye (geri) mos (geri) es (geri) tu (geri) dar.
Devemos estudar.

Linguagem do Niver

20) (níver) Eu (níver) es (níver) tou (níver) ner (níver) vo (níver) so.
Eu estou nervoso.

Linguagem do Fonfom

21) (fonfom) Je (fonfom) sus (fonfom) é (fonfom) re (fonfom) a (fonfom) lis (fonfom) ta.
Jesus é realista.

D) Vocábulos – obstáculos, dissilábicos, colocados depois das sílabas da palavra.

Linguagem do Parrá, Perré, Pirri, Porró, Purru,
cujo radical será seguido dos sons vocálicos da sílaba anterior.

22) E (perrê) les (perrê) não (parrão) gos (porrós) tam (parram) de (perr6) mú (purru) si (pirri) ca (parrá).
Eles não gostam de música.

Linguagem do Candê

23) Co (candê) mo (candê) é (candê) gran (candê) de (candê) o (candê) mun (candê) do (candê).
Como é grande o mundo.

Linguagem do radical “Pep”, seguido dos sons vocálicos da sílaba antecedente.

24) Que (pepê) rer (peper) é (peper) po (popô) der (pepê).
Querer é poder.

Linguagem do Farrá, Ferré, Ferri, Forró, Furru, cujo
radical será seguido dos sons vocálicos da sílaba precedente.

25) Voz (forrós) do (forró) po (forrô) vo (forrô) é (ferré6) a (farrá) vos (forró) de (ferré) Deus (ferreus).
Voz do povo é a voz de Deus.

Linguagem do Tibum

26) Eu (tibum) te (tibum) a (tibum) mo (tibum) meu (tibum) Bra (tibum) sil (tibum).
Eu te amo meu Brasil.

Linguagem do Cuntim

27) Eu (cuntim) sou (cuntim) bra (cuntiin) si (cuntim) lei (cuntim) ro (cuntim).
Eu sou brasileiro.

Linguagem do Taraz

28) Que (taraz) ro (taraz) si (taraz) lên (taraz) cio (taraz).
Quero silêncio.

Linguagem do Faim

29) As (faim) ro (faim) sas (faim) têm (faim) es (faim) pi (faim) nhos (faim).
As rosas têm espinhos.

Linguagem do Garra

30) O (garra) do (garra) min (garra) go (garra) é (garra) di (garra) a (garra) san (garra) to (garra).
O domingo é dia santo.

E) Vocábulos – obstáculos, trissilábicos, colocados antes das sílabas da palavra.

Linguagem do Chiprocó

31) (chiprocó) A (chiprocó) mu (chiprocó) lher (chiprocó) que (chiprocó) brou (chiprocó) o (chiprocó) po (chiprocó) te.
A mulher quebrou o pote.

I) Vocábulos – obstáculos, trissilábicos, colocados depois das sílabas da palavra.

Linguagem do Pirilim

32) Ho (pirilim) je (pirilim) vou (pirilim) es (pirilim) tu (pirilim) dar (pirilim) mu (pirilim) si (pirilim) ca (pirilim).
Hoje vou estudar música.

Linguagem do Tililim

33) O (tililim) ho (tililim) mem (tililim) é (tililim) in (tililim) te (tililim) li (tililim) gen (tililim) te (tililim).
O homem é inteligente.

Linguagem do Garará, Guererê, Guiriri, Gororó, Gururu,
cujo radical será seguido dos sons vocálicos da sílaba anterior.

34) Vo (gororô) cê (guererê) vai (gararai) em (guererei) bo (gororó) ra (garará)?
Você vai embora?

Linguagem do Chaparrá

35) O (chaparrá) me (chaparrá) ni (chaparrá) no (chaparrá) es (chaparrá) tá (chaparrá) cho (chaparrá) ran (chaparrá) do (chaparrá).
O menino está chorando.

Linguagem do Xereré

36) Bem (xereré) a (xereré) ven (xereré) tu (xereré) ra (xereré) dos (xereré) os (xereré) que (xereré) cho (xereré) ram (xereré).
Bem-aventurados os que choram.

Linguagem do Gueriguel

37) O (gueriguei) sol (gueriguei) es (gueriguei) ta (gueriguei) va (gueriguei) quen (gueriguei) te (gueriguei).
O sol estava quente.

Linguagem do Filelê

38) O (filelê) sol (filelê) es (filelê) tá (filelê) mui (filelê) to (filelê) quen (filelê) te (filelê).
O sol está muito quente.

Linguagem do Paepé, Peepé, Piepé, Poepé, Puepé

39) Vo (poepé) cê (peepé) vai (paepé) ca (paepé) sar (paepé)?
Você vai casar?

Linguagem do Concrespo / Concraspo
Intercalam-se após cada sílaba da palavra, alternadamente, os vocábulos concrespo / concraspo.

40) Eu (concrespo) plan (concraspo) tei (concrespo) um (concraspo) pé (concrespo) de (concraspo) jas (concrespo) mim (concraspo).
Eu plantei um pé de jasmim.

G) Vocábulos – obstáculos, monossilábicos, colocados antes e depois das sílabas da palavra.

Linguagem do Za … Ci

41) (zá) Não (ci) (zá) gos (ci) (zá) to (ci) (zá) de (ci) (zá) do (ci) (zá) ce (ci).
Não gosto de doce.

H) Também para confundir o ouvinte, é costume intercalar entre as sílabas das palavras, uma outra palavra já existente na língua. Por exemplo: garrafa, caneca, etc.

Linguagem do Garrafa

42) O (garrafa) ho (garrafa) mem (garrafa) é (garrafa) mor (garrafa) tal (garrafa).
O homem é mortal.

Linguagem do Caneca

43) Mi (caneca) nha (caneca) ca (caneca) sa (caneca) é (caneca) gran (caneca) de (caneca).
Minha casa é grande.

I) Todas as vogais (a, e, o, u) orais e nasais são substituídas pele vogal I.

Linguagem do I

44) I criínci isti ni quirti índi dírmi.
A criança está no quarto onde durmo.

J) Pela substituição das vogais por outros elementos fonéticos:
A – ais; E – enter; I – mis; O – ômber; U – úfiter.

45) Ômber múfiter-rômber dais caiszais dômber viniszinisnhômber enter maisrrômber.
O muro da casa do vizinho é marrom.

L) Substituindo-se as vogais orais e nasais que formam sílaba com a consoante “P” pela vogal “E” que aparece nas sílabas da palavra que se quer formar.

46) E (po) me (pum) de (po) ge (pi) re (pa).
O mundo gira.

M) Pela troca de consoantes entre vogais de uma palavra. Neste caso, as palavras monossilábicas não se alteram. A permuta de consoante entre palavras dissilábicas é fácil. A maior dificuldade reside nas polissilábicas, cuja permuta deve operar-se em ordem decrescente.

47) Dope vocher gofo.
Pode chover fogo.

N) Pela lnversão das sílabas das palavras (do fim para o começo). Também, neste caso, as palavras de uma sílaba não sofrem alteração.

48) Toues domanto nhoba.
Estou tomando banho.

49) Meu mãoir vai tarma o copor.
Meu irmão vai matar o porco.

0) Pela prolação dos fonemas que entram na constituição das sílabas da palavra. Permanecem inalterados os artigos e pronomes O, A, preposição A; conjunção E; a forma verbal É (verbo ser); as interjeições AH!, EH!, IH!, OH!, (ou ó) e UH!, e as vogais que sozinhas, formam sílabas.

50) A, beór – bôr, beó – bô, leé – lê, teá – tá, é, a, zeul – zul, e, veer – ver, meê – me, lheá – lha.
A borboleta é azul e vermelha.

LENDAS

LENDAS DO SUL

Angoera
Boi-Vaquim
A Gralha Azul
A Imagem de São Pedro
Leucrotta
Loura do Banheiro
O Minotauro
Negrinho do Pastoreio
A Origem do Milho
Tarrasque

A Origem do Milho

Nos campos começaram a escassear os animais. Nos rios e nas lagoas, dificilmente se via a mancha prateada de um peixe. Nas matas já não havia frutas, nem por lá apareciam caças de grande porte: onças, capivaras, antas, veados ou tamanduás. No ar do entardecer, já não se ouvia o chamado dos macucos e dos jacus, pois as fruteiras tinham secado.

Os índios, que ainda não plantavam roças, estavam atravessando um período de penúria. Nas tabas tinha desaparecido a alegria, causada pela abastança de outros tempos. Suas ocas não eram menos tristes. Os velhos, desconsolados, passavam o dia dormindo na esteira, à espera de que Tupã lhes mandasse um porungo de mel. As mulheres formavam roda no terreiro e lamentavam a pobreza em que viviam. Os curumins cochilavam por ali, tristinhos, de barriga vazia. E os varões da tribo, não sabendo mais o que fazer, trocavam pernas pelas matas, onde já não armavam mais laços, mundéus e outras armadilhas. Armá-los para quê? Nos carreiros de caça, o tempo havia desmanchado os rastos, pois eles datavam de outras luas, de outros tempos mais felizes.

E o sofrimento foi tal que, certa vez, numa clareira do bosque, dois índios amigos, da tribo dos guaranis, resolveram recorrer ao poder de Nhandeyara, o grande espírito. Eles bem sabiam que o atendimento do seu pedido estava condicionado a um sacrifício. Mas que fazer? Preferiram arcar com tremendas responsabilidades a verem a sua tribo e seus parentes morrerem de inanição, a míngua de recursos.

Tomaram essa resolução e, a fim de esperar o que desejavam, se estenderam na relva esturricada. Veio a noite. Tudo caiu num pesado silêncio, pois já não havia vozes de seres vivos. De repente, a dois passos de distância, surgiu-lhe pela frente um enviado de Nhandeyara.

– Que desejais do grande espírito? – Perguntou.

– Pedimos nova espécie de alimento, para nutrir a nós mesmos e a nossas famílias, pois a caça, a pesca e as frutas parecem ter desaparecido da terra.

– Está bem – respondeu o emissário. Nhandeyara está disposto a atender ao vosso pedido. Mas para isso, deveis lutar comigo, até que o mais fraco perca a vida.

Os dois índios aceitaram o ajuste e se atiraram ao emissário do grande espírito. Durante algum tempo só se ouviu o arquejar dos lutadores, o baque dos corpos atirados ao chão, o crepitar da areia solta atirada sobre as ervas próximas. Dali a pouco, o mais fraco dos dois ergueu os braços, apertou a cabeça entre as mãos e rolou na clareira…

Estava morto. O amigo penalizado, enterrou-o nas proximidades do local.

Na primavera seguinte, como por encanto, na sepultura de Auaty (assim se chamava o índio) brotou um linda planta de grandes folhas verdes e douradas espigas. Em homenagem a esse índio sacrificado em benefício da tribo, os guaranis deram o nome de auaty, ao milho, seu novo alimento.

LENDAS DO NORTE

Boto
Caipora
Caire e Catiti
Capelobo
Cobra-Norato
Curaganga /Cumaganga
Iara Mãe D’Água
Mapinguari
Muiraquitã
Pé de Anjo
Pirarucumbóia ou Pirarucuambóia
Uirapuru
Vitória Régia

O UIRAPURU

Arcada espessa de vegetação encobria o igarapé. A canoa passava exatamente sob esse túnel formado pela natureza, quando alguém levou o indicador aos lábios e sussurrou:
– Psiu!
– Que é? – perguntou o moço cuja voz fora interceptada.
– Psiu! – insistiram.

De repente, em meio ao estridular e à vozearia do passaredo, ouviu-se como que uma escala de cinco sons límpidos, ternos, macios, agradáveis. Logo após a seqüência de outras notas, vibrantes, que feriam o ar e penetravam até o íntimo dos seres. Nesse interim, o silêncio emudecera tudo: calou-se o sabiá, tacitou o araçari, quietou-se a aratinga.

Afinal, com suavidade e harmonia surpreendente, variou o motivo e, em quente modulação, recheou de trinados e chilreios a sonata, quer alongando as notas plangentes e as harmonias agonizantes, quer elevando-se aos movimentos rápidos e gorjeios vigorosos. Ali se ouviam vozes brancas, timbres de címbalo e clavecino, sibilos de flautim e flajolé, doçuras de ocarina, e o ressoar de mil tintinábulos.

Enquanto a embarcação corria à flor das águas, os viajantes varriam com os olhos o verde sobrecéu que os encobria.
– Todos os pássaros silenciaram…
– É isso que acontece quando ele canta. Reúnem-se em volta dele e escutam.
– Onde estaria?
Deliciavam-se todos com a magia daqueles sons, daquelas harmonias.
– Que animal é esse? – inquiriu alguém.
– O uirapuru! – respondeu outra voz.
– Flechado, se ele cair de peito para cima, serve ao homem como protetor nos negócios e assuntos amorosos… Caso contrário, só serve à mulher…
– Só com flecha que se caça?
– Certo. Não pode ser ferido de outra maneira.
As conversas descambaram, então, para casos narrados sobre o poder da avezinha. E depois:
– Ah! Se eu tivesse um desses bichinhos!
– Quem carrega o uirapuru no pescoço ou no bolso é um afortunado…
– É, carece, enquanto o pajé tratar pela curuaruicica e pelo carajuru. Conforme o rito secreto e especial, o uirapuru se destina a proteger as pessoas em determinada coisa: assim, há uirapuru para o jogo, para o amor, para a caça, para negócios, para viagens e para a pesca.
– Depois de preparado, alguns têm cheiro adocicado e ficam irreconhecíveis. Existe muito uirapuru falsificado por aí.
– Se eu possuísse um urirapuru, guardava num cofre…
– Muitos têm medo…
A palestra seguia, porém, novo silêncio foi imposto a todos. O uirapuru retomava o canto e, agora, bem em cima da canoa, que parecia paralizar a marcha. Súbito, estacou a sonata. Ouviu-se, sim, um forte silvo de flecha lançada de arco certeiro. Num instante, no meio do barco, inerte, jazia caído lá da altura verdejante, o mago cantor do bosque. Fora o barqueiro que o fizera todos se voltaram contra o autor da façanha…
– Um crime matar um pássaro como esse!
Mas, logo se lembraram de sua força sobrenatural, e calaram-se. Naquela luta entre humanidade e superstição, ninguém, entretanto, tivera o cuidado de verificar de que modo ele havia tombado ao fundo do barco. Tomou-o o moço e guardou-o no samburá.

A moça, que a tudo assistira, não partilhara da revolta contra o barqueiro; pelo contrário, aproximou-se dele, em seguida. A sua estória era semelhante. Ela amava esse moço, mas este se apaixonara por outra, que, aliás, não o queria.
– Cinco vinténs pela caça? – disse a jovem apaixonada.
– Nem todo o dinheiro do mundo! – exclamou o canoeiro.
– Pois bem, tu bem sabes que eu o quero: hei de trabalhar de sol a sol, ganhar muito dinheiro, e comprar um uirapuru. Depois, hás de sofrer na alma a paixão incompreendida…

Por isso, se você ama e não é correspondido, ou se não vão bem os negócios, trate de possuir logo um uirapuru, que ele dá sorte e traz a felicidade no amor.
Como descobri-lo? É fácil: quando o uirapuru começa a cantar, o passaredo, estatelado e silente, se põe à roda a escutar…
E Tupã, o grande deus, se quer silêncio na mata, ordena que o mágico pássaro desate a melodiosa voz…

LENDAS DO CENTRO-OESTE

Arranca-línguas
Pai-do-Mato
A Mãe-do-Ouro
Mula-se-cabeça
Saci Pererê

A MÃE DO OURO

Havia em Rosário, a montante do rio Cuiabá, um rico senhor de escravos, de modos rudes e coração cruel. Ocupava-se na mineração de ouro, e seus escravos diariamente vinham de lhe trazer alguma quantidade do precioso metal, sem o que eram levados para o tronco e vergastados.

Tinha ele um escravo já velho a quem chamavam pai Antônio. Andava o negro num banzo que dava dó, cabisbaixo, resmungando, pois não lhe saía da bateia uma só pepita de ouro, e mais dia menos dia lá iria ele para o castigo. Certo dia, em vez de trabalhar, deu-lhe tamanho desespero, que saiu andando à toa pelo mato. Sentou-se no chão, cobriu as mãos e começou a chorar. Chorava e chorava, sem saber o que fazer. Quando descobriu o rosto, viu diante dele, branca como a neve, e com uma linda cabeleira cor de fogo, uma formosa mulher.

– Por que está triste assim, pai Antônio?

Sem se admirar, o negro contou-lhe a sua desventura. E ela:

– Não chore mais. Vá comprar-me uma fita azul, uma fita vermelha, uma fita amarela e um espelho.

– Sim, sinhazinha.

Saiu o preto do mato às carreiras, foi à loja, comprou o espelho e as fitas mais bonitas que achou, e voltou a encontrar a mulher dos cabelos de fogo. Então ela foi diante dele, parou num lugar do rio, e ali foi esmaecendo até que sumiu. A última coisa que ele viu foram os cabelos de fogo, onde ela amarrara as fitas. Uma voz disse, de lá da água:

– Não conte a ninguém o que aconteceu.

Pai Antônio correu, tomou a bateia e começou a trabalhar. Cada vez que peneirava o cascalho, encontrava muito ouro. Contente da vida, foi levar o achado ao patrão.

Em vez de se satisfazer, o malvado queria que o negro contasse onde tinha achado o ouro.

– Lá dentro do rio mesmo, sinhozinho.

– Mas em que altura?

– Não me lembro mais.

Foi amarrado no tronco e maltratado. Assim que o soltaram, correu ao mato, sentou-se no chão, no mesmo lugar onde estivera e chamou a Mãe do Ouro.

– Se a gente não leva ouro, apanha. Levei o ouro, e quase me mataram de pancada. Agora, o patrão quer que eu conte o lugar onde o ouro está.

– Pode contar – disse a mulher.

Pai Antônio indicou ao patrão o lugar. Com mais vinte e dois escravos, ele foi para lá. Cavaram e cavaram. Já tinham feito um buracão quando deram com um grande pedaço de ouro. Por mais que cavassem não lhe viam o fim. Ele se enfiava para baixo na terra, como um tronco de árvore. No segundo dia, foi a mesmaParticipe dos nossos concursos…. coisa. Cavaram durante horas, todos os homens, e aquele ouro sem fim se afundando para baixo sempre, sem que nunca se pudesse encontrar-lhe a base. No terceiro dia, o negro Antônio foi à floresta, pois viu, entre as abertas do mato, o vulto da Mãe do Ouro, com seu cabelo reluzente, e pareceu-lhe que ela o chamava. Mal chegou junto dela, ouviu que ela dizia:

– Saia de lá amanhã, antes do meio-dia.

No terceiro dia, o patrão estava como um possesso. O escravo que parava um instante, para cuspir nas mãos, levava chicotada pelas costas.

– Vamos – gritava ele -, vamos depressa com isso. Vamos depressa.

Parecia tão maligno, tão espantoso, que os escravos curvados sentiam um medo atroz. Quando o sol ia alto, pai Antônio pediu para sair um pouco.

– Estou doente, patrão.

– Vá, mas venha já.

Pai Antônio se afastou depressa. O sol subiu no céu. Na hora em que a sombra ficou bem em volta dos pés no chão, um barulho estrondou na floresta, desabaram as paredes do buraco, o patrão e os escravos foram soterrados, e morreram.

LENDAS DO SUDESTE

Alma do Padre Aranha
O Alien
O Boneco de Pano
Canhambora
Canoa Fantasma
Cavalo-das-Almas
Chibamba
Choro do Ipê
Cresce-Míngua
Dona Beija
Famaleal
Galo Depenado
Porque os Galos cantam
A Ida sem retorno
Loura do Banheiro
Loura Fantasma/ou do WC
A Luz
Mão-de-cabelo
Mão Peluda
A Moça de Branco
A Missa dos Mortos
O Mito da rede
Mulher-do-algodão
A Noiva de Branco
Negro D’água
A Origem dos Diamantes
Pilão de fogo
Pilão Moedor
Pinto Pelado (Domingos Pinto)
Pisadera
A Porca-dos-sete-leitões
A Porca-dos-sete-leitões
Princes Fantasy
Quibungo
Rondolo
São Benedito
Tangarás

A LOIRA DO BANHEIRO

Esta história é muito contada em escolas da rede pública na cidade de São Paulo. Sua fama é muito grande entre os alunos.

Uma garota muito bonita de cabelos loiros com aproximadamente 15 anos sempre planejava maneiras de matar aula. Uma delas era ficar ao banheiro da escola esperando o tempo passar.

Porém um dia, um acidente terrível aconteceu. A loira escorregou no piso molhado do banheiro e bateu sua cabeça no chão. Ficou em coma e pouco tempo depois veio a morrer.

Mesmo sem a permissão dos pais, os médicos fizeram autópsia na menina para saber a causa de sua morte.

A menina não se conformou com seu fim trágico e prematuro. Sua alma não quis descansar em paz e passou a assombrar os banheiros das escolas. Muitos alunos juram ter visto a famosa loira do banheiro, pálida e com algodão no nariz para evitar que o sangue escorra.

LENDAS DO NORDESTE

Ana Jensen
Alamoa
Barba-ruiva
Bicho-Homem
Cabeça-de-Cuia
Cavalo D’água
Foguinho da Ladeira
Gorjala
Iara Mãe D’Água
Lagoa das Guaraíras
Labatut
Maçone
Princesa de Jericoacoara
Quilombo dos Palmares

PRINCESA DE JERICOACOARA

É uma princesa que mora em uma gruta, cheia de riquezas.

Está transformada em serpente, com a cabeça e pés femininos, coberta de escamas de ouro.

Só poderá ser desencantada com sangue humano, fazendo-se uma cruz sobre o seu dorso.

Aí, ao lado da princesa, aparecerão tesouros e maravilhas da cidade onde ela mora.

No Ceará, praia de Jericoacoara.

3 thoughts on “Datas Comemorativas – FOLCLORE

  1. Gostei muito da matéria e será de grande valia para o meu trabalho em sala de aula. Um abraço e obrigada.

    Cybele Reply:

    Olá Rosimeire, tudo bem?

    Obrigada por enriquecer o nosso espaço com seu comentário.
    Continue acompanhando o Educa Já!
    abraços
    Equipe Educa Já!

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