Bicentenário da Imprensa no Brasil – parte II

Olá amigos professores,

No dia 10 de setembro comemoramos os 200 anos do Primeiro Jornal Impresso do Brasil e
publiquei um post contando um pouco sobre o início da Imprensa no nosso país.

Publiquei o maravilhoso estudo realizado por Rodrigo Acioli Peixoto e André Raboni editores do blog Acerto de Contas que encerraram o primeiro artigo da série Bicentenário da Imprensa no Brasil se valendo de uma prática extinta nos dias de hoje, porém habitualmente utilizada quando publicavam matérias inconclusas: “Continuar-se-há”.

Recebi e-mails de professores de História me perguntando quando “Continuar-se-há” a segunda parte da matéria.

Assim sendo, segue abaixo:

O Noticioso e o Doutrinário nos primeiros periódicos da imprensa brasileira

Fonte: Acerto de Contas

No dia 4 de setembro publicamos o primeiro artigo da série Bicentenário da Imprensa no Brasil (leia aqui). No artigo de hoje, gostaríamos de investigar dois importantes elementos da imprensa nascente, quando da vinda da corte portuguesa para o Brasil (1808). Os elementos em questão são: o “caráter noticioso” e o “caráter doutrinário” das chamadas “folhas públicas”, ou ainda, “jornaes públicos” (sic).

Para qual público se dirigia essa imprensa nascente? Com que objetivos? E, de que maneira se apresentavam o noticioso e o doutrinário nesses impressos públicos? É sobre essas questões que iremos nos debruçar neste segundo artigo.

Nessa época, os dois periódicos de maior circulação em solo brasileiro eram: O Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro. Temos ainda a adição de um terceiro periódico, A Idade D’Ouro do Brazil, a partir de 1811, na Bahia. Contudo, nossos olhos se voltarão à Gazeta e ao Correio – ambos circularam até os limites da independência (1822).

Os leitores

Na maior parte dos países não foi diferente daqui: gazetas oficiais, ou semi-oficiais (sé é que existe isso) eram impressas para circular entre as cortes, e, já desde os séculos XVII-XVIII faziam parte das práticas de leitura e de sociabilidade cortesã na Europa (embora circulassem alguns impressos públicos em terras brasileiras antes mesmo da chegada da corte).

A tipografia, mesmo sendo uma prática artesanal, exigia muitas peças e um tanto de investimento – era uma tecnologia para poucos. Na corte joanina, o nascimento da Tipografia Real surge para atender as demandas de uma corte que até então nunca havia pisado em solo brasileiro – e que se instalara de mala e cuia (1808).

As embarcações trouxeram não apenas a corte, mas todo seu aparato de civilidade; ou, ao menos, o desejo que seus membros projetavam nesse aparato.

Uma Gazeta, livros vendidos em boticas e pequenas lojas, roupas, perfumaria importada (geralmente da França ou da Inglaterra), eram alguns dos elementos que faziam parte do cotidiano da corte joanina. Como dissemos no primeiro artigo, nas mesmas naus que trouxeram a corte de Portugal, uma oficina tipográfica também viera.

Os primeiros periódicos: o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio

A Tipografia Real foi posta a funcionar antes mesmo da abertura dos portos brasileiros às nações amigas (leia-se, Inglaterra). De início, essa tipografia imprimiu livros. Mas, em seguida, baseando-se na Gazeta de Lisboa, foi criada a Gazeta do Rio de Janeiro. No mesmo ano, começa a circular em solo brasileiro o periódico Correio Braziliense (1808), editado e impresso na Inglaterra, por Hipólito da Costa.

Embora no texto que abre a primeira edição do Correio Braziliense, Hipólito da Costa já fale em um “primeiro despertador da opinião pública”, é preciso notar que Hipólito escreve anunciando a proposta do periódico “àqueles a que se dedica”, o que não comprova ainda a existência do que viria a constituir uma opinião pública – que se revelará de forma mais clara no início da década de 1820 (escreveremos em breve um artigo para tratar especificamente dessa questão).

A leitura de gazetas não era uma prática incomum para a elite letrada do Brasil antes da chegada da corte. Algumas até já circulavam desde o final do século XVIII. Com a vinda da corte, a chegada d’El Rei e seu séqüito, essa circulação foi se intensificando, ao mesmo tempo em que eram aquecidas as atividades comerciais.

O doutrinário e o noticioso

A historiografia que lida com da imprensa no Brasil nesse período, tanto no que concerne à forma quanto ao conteúdo dos periódicos, costuma dividir a imprensa nascente em dois tipos: a doutrinária e a noticiosa.

O noticioso se distinguiria do doutrinário pelas notícias oficiais – geralmente, logo nas primeiras páginas. Algumas vezes com cartas oficiais, decretos Reais, estrangeiros ou locais. Contudo, no mais das vezes, as notícias eram de cunho administrativo.

Por sua vez, os periódicos de caráter doutrinário (embora as notícias oficiais e os acontecimentos também povoassem suas páginas) obedeciam à outra ordem. Não traziam apenas notícias, mas, sobretudo, artigos e cartas, não como ‘descrições imparciais da realidade’, mas, antes, como argumento a ser provado. Mas, as notícias também estavam presentes.

Parece lugar-comum, mas é bom lembrar que a velocidade de circulação desses periódicos não são comparáveis à velocidade de publicação dos diários. As notícias, embora “atrasadas”, adquiriam status de “oficial”; pois, “pública”, ao serem publicas nos impressos. Na 8º página da 1º edição do Correio Braziliense, encontra-se publicada a notícia da invasão da tropas do exército de Napoleão em Lisboa.

Clique na figura para vê-la aumentada

Essa notícia era dirigida aos habitantes de Lisboa (provavelmente tenha circulado em outros impressos portugueses à época da invasão). A intervenção francesa em Portugal se deu em novembro de 1807, e a impressão dessa 1º edição do Correio data de junho de 1808. Trata-se um claro distanciamento no tempo e no espaço: sete meses e cerca de 7711 km (Lisboa-Rio de Janeiro).

A notícia acima está assinada por Jean-Andoche Junot, membro do Exército napoleônico e antigo representante da diplomacia francesa em Portugal, além de ex-Governador Militar de Paris. Junot e o exército frances não eram muito bem visto pelos portugueses, sobretudo os letrados. No artigo intitulado Literatura, e Sciencias (páginas 30-31 da 1º edição do Correio), Hipólito faz uma dura crítica à Junot. Nesse artigo sobre a situação literatura portuguesa à sua época, Hipólito mostra grande eloquência na sua escrita e sagacidade em suas leituras, quando diz (transcrito abaixo, por nós, preservando o português da época):

“(…) Tenho que commeçar minha taréfa com huma miserável produçaõ anonyma, que, pelo título e matéria, da bem a conhecer, que he obra mandada fazer pelo Governo Francez. He ésta hum folheto em 8º de 13 páginas, intitulado – Notícia Historica do Estado actual da Inglaterra neste ano de 1808. (…). Eu tenho, he verdade, naõ mui elevado conceito a literatura Portugueza dos nossos tempos, nem éra de esperar outra cousa com as constantes perseguiçoes, que naquelle paiz soffrem os homens de letras (…). Principia o folheto por este exordio: “Julgando nós muito interessante dar huma idéia, ou notícia Historica do presente estado da Inglaterra…” (…) Julgando nós ; diz folheto ; por que seu author não soube nem sequer disfarçar, que isto era obra do Governo Francez, aquelle Nós, nem é boa fraze Portuguesa, nem he a expressaõ de que hum escriptor se serviria a menos, que naõ fossem muitos os authores. (…); e daqui se pode logo concluir, que he obra dos do Governo Francez. Isto declára melhor o parágrapho, quando diz, que, “intentamos desde logo, …” pergunto ; A que se refere aquelle logo? Logo, que entramos em Lisboa. Logo taõbem eu tiro, que saõ os franceses quem falam. Mas, deixando estes descuídos do Author entremnos na matéria. O folheto continûa.”

Embora fossem comuns as notícias, sobretudo as oficiais, o Correio carregava consigo um caráter nitidamente mais doutrinário que noticioso. As edições, que eram mensais, continham cerca de 80 páginas. Embora em suas folhas não faltassem notícias e documentos oficiais, o Correio trazia muitos artigos e cartas que visavam “convencer” os leitores de que as idéias de seu autor eram verdadeiras.

No primeiro artigo do Correio (poderíamos chamar de “editorial”?), Hipólito já mostra alguns traços dos pensamentos que viriam a nortear os conteúdos de seu periódico. Na segunda página de seu primeiro artigo, diz:

“(…) Sendo também Nós aquella Nação, que comprou a sua liberdade, e independência com estes jornaes políticos, seremos agora a única, que se hade achar sem estes soccorros, nescesarios a um estado independente o qual poderia algum dia rivalizar, pela sua situaçaõ local, em que a natureza poz o vasto Império do Brasil, ás primeiras Potencias do mundo? (…) Longe de imitar só, a o primeiro despertador da opiniaõ publica nos factos, que excitaõ a curiosidade dos povos, quero, alem disso, traças as melhorias das Sciencias, das artes, e n’uma palavra de tudo aquillo, que pode ser útil a sociedade. (…) O meu único desejo será de acertar na geral opinaõ de todos, e para o que dedico esta empreza todas as minhas forças, na persuasaõ de que o fruto do meu trabalho tocará a meta da esperança, a que eu me propus. Londres, 1 de julho de 1808?.

A Gazeta do Rio, em sua estréia, apresenta-se com um caráter noticioso. De início, era semanal (aos sábados), sendo posteriormente publicada duas vezes por semana (sábados e quartas-feiras). Curioso é que a primeira edição da Gazeta traz no final da sua 4º página o anúncio de uma espécie de “assinatura” do periódico. Diz assim:

“(…) Que as pessoas que , que quiserem ser ass(-)tes [assinantes], deverão dar os seus nomes , e moradas , na sobredita Caza , pagando logo os seis primeiros meses a 1 : 900 Réis ; e lhes serão remetidas as folhas a suas cazas no sábado pela manhã : que na mesma Gazeta se porão quaesquer annuncios , que se queirão fazer ; devendo estar na 4º feira no fim da tarde na Impressão Régia.”

A primeira edição da Gazeta tem quatro páginas, em formato de ofícios. Nela foram veiculadas notícias estrangeiras, principalmente sobre a situação das monarquias européias durante as incursões napoleônicas no contexto europeu, e os efeitos do bloqueio continental decretado pela França à Inglaterra – sobretudo para o comércio.

Era uma escrita voltada claramente para a aristocracia. Contudo, esses periódicos não eram lidos apenas na corte, e nem tão pouco unicamente os nobres os liam. Religiosos, escrivões, caixeiros, médicos e militares também formavam o público leitor dessas folhas. Além disso, a Gazeta também deixa transbordar por suas linhas uma série de juízos de valores, sobretudo quando fala da França de Napoleão.

No cotidiano desses dois periódicos, o doutrinário e o noticioso estavam imbricados de tal maneira que dificilmente poderíamos usar essas distinções como classificações binárias, do tipo: Correio Braziliense – doutrinário; Gazeta do Rio – noticioso.

Como vimos, é problemático usar essa distinção para classificar os periódicos desse período. É preciso olhar com cautela o caráter noticioso e o caráter doutrinário, pensar de forma atenta os significados destes termos naqueles tempos.

Continuar-se-há

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