Lição de casa

Olá amigos professores,

Compartilho este belíssimo texto que encontrei sobre um assunto polêmico que é o da LIÇÃO DE CASA. Eliane Palermo Romano retrata os diferentes enfoques que envolvem este tema.
Acredito que será de grande valia.
Boa leitura!
Cybele Meyer

LIÇÃO DE CASA – QUE PRÁTICA É ESTA?

Fonte: Temas para HTPC

A Lição de Casa é uma prática instalada na rotina escolar e, com pequenas diferenças, acontece na grande maioria das escolas, sejam quais forem as suas concepções de ensino e aprendizagem.

No entanto, a Lição de Casa também tem sido objeto de preocupação e desconforto, por parte de todos os envolvidos: professores, pais e alunos. Considerando o quanto o dever de casa é parte do processo escolar, é curioso o quanto incomoda.

Para os professores, é um trabalho diário de planejar e preparar tarefas adequadas e pertinentes aos conteúdos tratados em sala de aula, possíveis de serem realizadas sozinhas pelo aluno. Depois, ainda merece a atenção do professor no que diz respeito à correção, à devolutiva que é feita ao aluno, às revisões necessárias, aos alunos que apresentam dificuldades em realizá-la ou que não fazem a lição de casa, por diferentes motivos. E, este trabalho, na maioria das vezes, não revela a riqueza e a criatividade das situações vivenciadas em sala de aula, das metodologias utilizadas, restringindo-se a atividades mecânicas e de fixação de conteúdos, comprometendo, inclusive, o entendimento do Projeto Pedagógico da Escola, por parte dos pais.

Para estes, que têm como referência principal o seu próprio filho, a Lição de Casa recebe avaliação controversa: para alguns, é muita tarefa e não sobra tempo para outras atividades; para outros, é pouca tarefa, que é realizada em dez minutos e a criança não adquire hábitos de estudo. Para alguns pais, ainda, a lição de casa não tem a qualidade desejada, seja porque é fácil demais, sem desafios ao aluno, ou porque a criança não consegue fazê-la sozinha, necessitando de ajuda, o que nem sempre é possível, pela falta de tempo ou mesmo pela dificuldade dos pais compreenderem as novas metodologias de ensino, diferentes do seu tempo de escola. Há ainda, aqueles que avaliam a qualidade dos enunciados, a clareza das propostas, os erros ortográficos ou de digitação e até mesmo os erros conceituais.

Para os alunos, a Lição de Casa, muitas vezes, também gera desconforto. Há alunos que apresentam uma necessidade de corresponder à idéia de que só serão aceitos pela professora, se suas lições estiverem completas, corretas e perfeitas. Isto causa ansiedade e sofrimento. Há alunos que não se permitem errar e, portanto, não se permitem tentar, ousar, levantar hipóteses, pensar e fazer conforme aquilo que pensou. São alunos que precisam da certeza de que sua resposta é aquela que, supostamente, a professora está esperando. Sabemos que há alunos que fazem da lição de casa um pretexto para ter a presença e atenção dos pais, apresentando uma suposta falta de autonomia, já que em sala de aula realizam, sozinhos, atividades semelhantes. Temos também, alunos que apresentam dificuldade com a organização de sua rotina diária e esquecem de fazer ou de trazer a lição. Isto para alguns é bastante perturbador e, portanto, ocorre esporadicamente. Para outros, ocorre com freqüência e precisam de intervenções constantes, pois aparentam não se incomodar com a situação. Há, ainda, alunos que não se interessam pelas atividades de Lição de Casa, vão deixando para mais tarde, e acabam sem tempo para fazê-la ou fazendo sem qualidade.

Poderíamos enumerar muitos outros desdobramentos destas situações geradas pela Lição de Casa, porém, o que foi apresentado até aqui, nos parece suficiente para justificar a necessidade de uma reflexão e uma re- significação de sua prática.

PARA QUE SERVE A LIÇÃO DE CASA?

Em primeiro lugar, precisamos situar a Lição de Casa como atividades que representam uma oportunidade de auto- aprendizagem, auto-conhecimento, de reflexão, expressão e crescimento pessoal do aluno. Para isto, é preciso repensar duas crenças arraigadas: a de que a tarefa de casa tem como objetivo que o aluno aprenda o que foi trabalhado em classe, fazendo exercícios repetitivos e mecânicos, ou seja, que aprendemos pela repetição; e a crença de que a obrigatoriedade da lição diária gera, por si só, a responsabilidade e o hábito de estudo.

Não aprendemos pela repetição mecânica e descontextualizada, mas pelo significado que atribuímos ao conteúdo estudado, pela capacidade adquirida para poder compreendê-lo, pelo seu uso nas situações de vida, pelo envolvimento que podemos ter com o objeto de estudo. O hábito de estudo, ou melhor, o gosto pelo estudo é adquirido quando o aluno experimenta o desejo de conhecer e o que isto lhe traz de crescimento pessoal.

Neste sentido, o professor tem a missão desafiadora que é despertar no aluno o desejo pelo conhecimento do mundo, do outro e de si mesmo. E quando falamos em desejo, falamos daquele sentimento que põe em movimento todo o corpo e todo o pensamento, portanto, não é só prazer, não é só aprender o que gosto. O desejo espanta a apatia e faz buscar, pesquisar, trabalhar, até que se consiga o conhecimento desejado e se experimenta a satisfação por aprender.

A Lição de Casa, assim como o trabalho realizado em sala de aula, deve servir a este propósito e, para isto, uma atitude é fundamental: que os adultos, pais e professores, estabeleçam uma relação com o conhecimento, que seja coerente com aquilo que esperamos da criança, ou seja, o desejo pelo conhecimento, o hábito de estudo e a leitura, também precisam estar presentes na vida das pessoas com as quais a criança convive.

A Lição de Casa como oportunidade de auto-conhecimento e reflexão é aquela que propõe ao aluno, de forma orientada, uma análise de sua aprendizagem diante de um determinado conteúdo, seja ele um conceito, um procedimento ou uma atitude. Este tipo de atividade deve proporcionar ao aluno perguntar-se sobre:

– O que sei deste conteúdo?

– O que ainda não consegui entender?

– Que perguntas gostaria de fazer?

– Que hipótese levanta sobre a minha dificuldade?

– Que coisas estão interferindo na minha aprendizagem, ajudando ou atrapalhando?

– O que espero, como ajuda, do meu professor?

Propor ao aluno que reflita sobre estas questões e expresse seus sentimentos e sua percepção de como avalia seu processo de aprendizagem, poderá ser um instrumento mais eficaz de aprendizagem e favorecer a sua participação e protagonismo, do que simples exercícios de repetição.

COMO DEVE SER A LIÇÃO DE CASA

Não há um único tipo de Lição de Casa que poderíamos escolher como a melhor. A diversidade de propostas é o que poderá beneficiar a todos os alunos.

Neste sentido, o professor deverá cuidar para que, ao planejar as tarefas de casa, apresente um repertório diversificado em habilidades e procedimentos importantes para o desenvolvimento do aluno. Esta diversidade inclui atividades em que o aluno possa, por exemplo, realizar leituras de diferentes tipos de textos (informativos, poéticos, jornalísticos…), com diferentes objetivos: coletar dados, conhecer um determinado assunto, aprofundar um tema estudado em sala de aula, apreciar um poema, conhecer um determinado autor, enfim, são inúmeras as possibilidades que, a partir da leitura, podemos desenvolver.

Para que a leitura não seja uma Lição de Casa desvalorizada, feita com um passar de olhos, é importante que o professor oriente, através de questões, os procedimentos de leitura necessários para que o aluno possa atingir os objetivos propostos. Dificilmente os objetivos serão alcançados se o enunciado da Lição de Casa se restringir a : “Leitura do texto XXXXXX”, ou se as questões propostas forem apenas para tratar o vocabulário desconhecido e verificar se o aluno compreendeu o que leu.

As orientações de leitura devem chamar a atenção do aluno para habilidades que ele pode não ter adquirido ainda, ao ler um texto sozinho. Ter clareza, por exemplo, de porque está lendo aquele texto, pode mudar completamente a forma como vai ler e a sua busca diante do texto. Aprender a perceber a estrutura do texto, é outro exemplo de uma habilidade que, na maioria das vezes, os alunos ainda não conseguem analisar sozinhos. Assim, o professor orienta a reconhecer os recursos que o autor utilizou em um texto informativo, por exemplo, para introduzir o tema, para desenvolvê-lo e como o conclui.

Se a Lição de casa for um texto da literatura infanto-juvenil ou um texto poético, outros procedimentos poderão ser desenvolvidos, principalmente aqueles relacionados à criatividade, formas de expressão e posicionamento do aluno diante da leitura.

Além da leitura, a Lição de Casa pode incluir a coleta de dados, atividades de criação, revisão e fixação. No caso da coleta de dados, preferimos utilizar este termo e não pesquisa, pois esta envolve habilidades e procedimentos que os alunos, nesta etapa da escolaridade ainda não adquiriram. A coleta de dados poderá ser feita através de entrevistas, desde que orientadas previamente em sala de aula, com questões construídas pelo professor e alunos. Quando a coleta envolve entrevista com outras pessoas, a orientação é que não seja solicitada de um dia para outro. No caso da coleta ser feita através de fonte escrita, o professor deverá oferecer a fonte. Quando a fonte não for disponibilizada ao aluno, a lição terá o caráter de contribuição e, portanto, não será exigida de todos os alunos.

Além da diversidade de tipos de Lição de Casa, é importante que o professor esteja atento à necessidade de diversificar a quantidade e o grau de dificuldade que a lição oferece, tendo em vista o conhecimento que tem de seus alunos quanto ao ritmo de trabalho, autonomia e desenvolvimento cognitivo. Para todos os alunos a Lição de Casa poderá ser um desafio, mas sempre um desafio alcançável. Receber Lição de Casa diferenciada não será motivo de estranhamento se, na rotina da sala de aula, a diversidade for trabalhada com respeito em todas as situações.

Toda a Lição de Casa deverá ter um registro escrito, pois as propostas orais incidem, com mais facilidade, em esquecimentos e falta de compreensão.

A qualidade da tarefa deverá ser avaliada tendo como referência alguns critérios:

– apresentação gráfica (legibilidade, clareza, ilustração, topografia);

– clareza e coerência nos enunciados;

– propostas desafiadoras, mas que o aluno tenha condições de realizar sozinho;

– diversidade de procedimentos envolvidos;

– propostas contextualizadas;

– diversidade de conteúdos;

– atividades que possibilitem a sistematização, a fixação, a criação, a busca do conhecimento;

– atividades que orientem o aluno a saber estudar;

– atividades que proporcionam ao aluno a reflexão do seu próprio processo de aprendizagem;

– atividades que propõem ao aluno criar propostas de Lição de Casa de acordo com a sua necessidade e desenvolvimento;

– propostas que envolvem conceitos corretos e atualizados das diferentes disciplinas.

Aprender a estudar também poderá ser uma atividade de Lição de Casa, desde que orientada pelo professor. Escrever na agenda: “estudar a tabuada”, ou “estudar tal assunto”, não será suficiente para que o aluno possa se beneficiar desta tarefa. Nesta fase da escolaridade, cabe ao professor ensinar diferentes possibilidades de como se estuda, inclusive propondo que os próprios alunos criem procedimentos de estudo e os socializem com os colegas. Saber estudar também se aprende, pois supõe a utilização de uma série de habilidades como leitura, síntese, análise, classificação, comparação e muitas outras, que necessitam ser explicitadas e trabalhadas com o aluno.

QUAL A PERIODICIDADE E QUANTIDADE DE LIÇÃO DE CASA?

A Lição de Casa é proposta para todos os dias da semana. Os professores são orientados a não propor tarefa apenas para o final de semana. Isto, no entanto, não é lei. Há casos, por exemplo, em que o andamento do Projeto de classe necessita de dados e estes serão melhor coletados no final de semana. Neste caso, o bom senso e a flexibilidade deverão ser a referência de trabalho.

Quanto à quantidade, não chegaremos a um consenso, visto que a sua adequação depende de alguns fatores que variam muito de uma criança para outra, como: rotina diária da casa; horário de levantar, dormir; solicitação de amigos e vizinhos para brincar; atividades esportivas e culturais; supervisão de adultos na organização da rotina; motivação para o estudo; autonomia para o trabalho, enfim, fatores que interferem na quantidade de tempo que a criança dispõe para realizar a tarefa de casa e na qualidade com que as realiza.

Neste sentido, o ajuste necessário em relação à quantidade de Lição de Casa poderá ser feito a partir do conhecimento que o professor tem das competências de sua turma e de cada aluno em particular; do trabalho que realiza em sala de aula, no sentido de obter dos alunos dados sobre as condições em que realizam a Lição de Casa, sobre as dificuldades e facilidades encontradas; e da constante comunicação entre os pais e a escola sobre o desempenho da criança ao fazer as tarefas de casa.

É possível, assim, estimar uma quantidade média de lição para cada ano /série, mas esta será apenas uma referência, sujeita a avaliações e ajustes constantes.

A CORREÇÃO DA LIÇÃO DE CASA

Toda a tarefa solicitada pelo professor deverá receber algum tipo de tratamento, que pode variar conforme o objetivo. Por exemplo:

– Correção individual feita pelo professor: neste tipo de correção o professor avalia o trabalho de cada aluno com o objetivo de conhecer o que consegue fazer sozinho, sondar a situação da classe em relação ao conteúdo da lição, propor novas atividades, apontar para o aluno as revisões necessárias, e situá-lo em relação ao seu desempenho;

– Correção coletiva feita pelo aluno com a mediação do professor e dos colegas: a correção coletiva tem como objetivo desenvolver no aluno a competência para a auto-correção orientada. Nesta correção o professor trabalha com a idéia de que podem existir várias maneiras de se resolver uma situação, de que não há, necessariamente, uma única resposta correta e com a idéia de que a socialização das respostas do grupo-classe poderá trazer contribuições para a resposta que elaborou individualmente. É uma correção que merece bastante atenção por parte do professor, pois não se trata apenas de conferir respostas, mas de capacitar o aluno a comparar respostas, verificando semelhanças e diferenças quanto ao conteúdo e forma de apresentá-las;

– Correção feita em duplas de alunos, com posterior revisão do professor: esta forma de correção permite aos alunos uma troca efetiva sobre o trabalho realizado em casa. O professor pode orientar esta correção oferecendo, por exemplo, um roteiro de análise a partir do qual os alunos avaliam os seus próprios trabalhos e apontam o que deve ser revisto. Ao recolher a correção feita em duplas, o professor analisa, também, a capacidade de auto-correção da dupla e as intervenções necessárias;

– Correção por amostragem feita pelo professor: a amostragem é um recurso que o professor pode utilizar em algumas tarefas, diminuindo a sobrecarga de atividades a serem corrigidas. Assim, com uma classe, por exemplo, de trinta alunos, poderá analisar o aprendizado de um determinado conteúdo, corrigindo atividades de seis alunos por dia. Ao final de uma semana, terá dados de cada aluno individualmente, e da classe como um todo. As atividades dos outros alunos poderão receber o tratamento da correção coletiva;

– Correção feita por colegas monitores: quando o professor tiver como prática a monitoria de alunos, poderá recorrer a esta prática, desde que oriente e estabeleça com os alunos alguns parâmetros e procedimentos de correção. Poderá ainda combinar esta prática com a correção por amostragem, analisando a competência de cada aluno para este trabalho e a necessidade de intervenção;

– Auto-correção: para tarefas mais objetivas, o professor poderá propor que os alunos exercitem a auto-correção, procedimento de extrema importância no processo de aprendizagem do aluno. Poderá, para isto, elaborar um roteiro de análise e/ou um gabarito, para que o aluno tenha condições de refletir sobre suas respostas, identificar possíveis erros e tentar refazer o que for necessário.

Em relação ao tipo de correção, a diversidade também é um fator favorável para o desenvolvimento de procedimentos de aprendizagem no aluno. A utilização de diferentes formas de correção poderá romper com a idéia de que o aluno faz a lição somente para o professor corrigir, estabelecendo assim uma relação mecânica e sem significado com o conhecimento. A relação democrática na sala de aula, o clima de confiança recíproca entre professor e alunos e a compreensão de que o erro é um caminho necessário para aprender, precisam ser intencionalmente construídos para que seja possível a realização e o tratamento da Lição de Casa com mais sentido.

A tarefa de casa é apenas um dos aspectos da vida da sala de aula. Não se pode esperar que o aluno tenha espontaneamente atitudes desejadas frente à lição de casa, se a relação estabelecida no dia a dia da classe for autoritária e não houver espaço para a dúvida, para o erro, para a hipótese, para o pensamento divergente, para procedimentos diversos. A atitude do professor diante do conhecimento do aluno, daquilo que ele foi capaz de elaborar sozinho, terá uma influência decisiva na sua segurança para ousar, arriscar, pensar, buscar procedimentos pessoais de resolução de situações.

Ainda com relação à correção, é preciso salientar a importância do compromisso que deve ser estabelecido entre professor e alunos sobre a Lição de Casa. Este compromisso deverá ser trabalhado diariamente, a partir de atitudes e regras claras. Por exemplo, se a tarefa foi combinada para determinado dia, tanto o professor, como o aluno, devem assumir este compromisso. Cabe ao professor organizar a rotina da aula daquele dia, para que a lição receba o tratamento adequado e o trabalho do aluno seja valorizado. O aluno deverá ter clareza das conseqüências, em seu desempenho, sobre o fato de não cumprir as tarefas. Cabe ainda, ao professor, fazer devolutivas sobre a qualidade do trabalho do aluno, de forma clara e acessível e com prazos razoáveis. Não faz muito sentido o aluno receber a correção da lição de casa, três ou quatro semanas depois.

De forma coerente com o processo de avaliação assumido pela Escola, a devolutiva de avaliação do trabalho do aluno deverá ser feita através de comentários escritos ou orais, com o objetivo de situar o aluno sobre o seu desempenho e auxiliá-lo, se for o caso, a rever seus procedimentos. Notações numéricas ou com letras não fazem parte da avaliação dos Ciclos I e II da Escola. Conceitos como Bom, Muito Bom, Médio, Fraco, não trazem ao aluno informação suficiente para que possa melhorar o trabalho. Apenas classificam o desempenho do aluno, sem que este tenha a oportunidade de aprender a partir da intervenção do professor.

O ALUNO QUE NÃO FAZ A LIÇÃO DE CASA

Não podemos estabelecer condutas generalizadas diante do fato de alunos que não fazem a Lição de Casa. Cada caso deverá ser analisado pelo professor juntamente com a coordenação e, a partir desta análise, as condutas deverão ser estabelecidas e acordadas entre a Escola , a família e a criança.

No entanto, algumas atitudes são fundamentais nesta situação e o trabalho diário deverá contribuir para que o aluno:

– Tenha clareza quanto à importância da responsabilidade com a Lição de Casa;

– Perceba que a falta da lição compromete o seu trabalho em sala de aula;

– Assuma as conseqüências da lição não feita e se comprometa em reverter a situação;

– Tenha dados precisos, semanalmente, sobre a quantidade de lições que deixou de fazer e reflita sobre os motivos que o levaram a isto.

Quanto ao professor, é preciso todo o cuidado para que suas atitudes frente ao compromisso da lição de casa não oscilem entre os extremos, ou seja, ora agindo de maneira permissiva, adiando prazos, não deixando claro para o aluno como a falta da tarefa compromete o seu desempenho e desenvolvimento, não tendo formas eficazes de organização na classe para verificar quais alunos fizeram a tarefa, não se organizando para que na rotina do dia a tarefa receba o tratamento adequado; ora agindo de maneira autoritária, comentando com o aluno de forma a provocar constrangimento diante dos colegas, não abrindo espaço para ouvir os motivos que o aluno teve para não realizar a tarefa.

A responsabilidade com a Lição de Casa é uma atitude a ser desenvolvida no aluno. No entanto, nem o descaso com a tarefa, nem a excessiva preocupação devem estar presentes. O professor deverá cuidar e agir coerentemente, para que o aluno perceba a diferença entre não fazer a lição ou parte dela, porque tentou, mas não conseguiu, trazendo assim as suas dúvidas para a sala de aula, e não trazer a lição por motivos que demonstram descompromisso.

A LIÇÃO DE CASA NA ROTINA DO DIA

Para que a tarefa de casa tenha a atenção e o tratamento adequados, é preciso que o professor planeje a agenda do dia de tal forma que tenha tempo suficiente para:

– conversar com os alunos sobre a proposta da lição de casa, esclarecendo possíveis dúvidas com o vocabulário, enunciados, procedimentos, enfim, antecipando dificuldades que possam surgir. Para isto, é importante que o professor apresente a lição, peça para os alunos lerem individualmente e levantarem dúvidas, que serão compartilhadas com a classe. O professor, com o conhecimento que tem de seus alunos, deve estar atento para que todos participem deste momento;

– os alunos registrarem a Lição de Casa na agenda e o professor verificar se todos anotaram adequadamente. São atitudes de organização que parecem sem muita importância, mas que podem ajudar o aluno;

– distribuir a Lição de Casa, de tal forma que o professor tenha certeza de que todos recebam e de que os ausentes terão suas tarefas guardadas. A mesma organização deverá acontecer na hora de recolher a Lição de Casa, tendo controle sobre quem entregou ou não, para que possa intervir. Estes momentos deverão acontecer com a classe em silêncio e com todos em seus lugares, sentados;

– dar o tratamento adequado para a Lição de Casa, seja apenas recolhendo para uma avaliação individual ou retomando no coletivo da sala. Mesmo que seja somente para recolher, é importante o professor ouvir os alunos sobre as dúvidas, dificuldades, enfim questões que trazem sobre a realização da tarefa em casa. Se a tarefa foi uma coleta de dados ou uma outra contribuição e o tempo não der para todos os alunos apresentarem no mesmo dia, o professor deverá, pelo menos, tomar conhecimento da contribuição de cada um e organizar com a classe todas as apresentações para o dia seguinte;

– os alunos receberem a Lição de Casa corrigida, com as considerações do professor e terem o tempo em sala de aula, sob supervisão do professor, para realizar as revisões sugeridas e arquivarem a lição adequadamente.

A LIÇÃO DE CASA E A FAMÍLIA

A pergunta mais freqüente dos pais é se devem ajudar na Lição de Casa e, se sim, como devem fazê-lo.

Não há uma resposta absoluta para esta questão, pois depende de vários fatores que analisaremos a seguir.

Em primeiro lugar, vamos considerar que a relação que o aluno estabelece com o conhecimento depende, em grande parte, da relação que os adultos, com os quais convive, têm com o conhecimento. Desta forma, compartilhar na família, experiências de conhecimentos trará contribuições importantes para o desenvolvimento intelectual de todos.

Adultos que compartilham com a criança a leitura de um livro, comentam informações de jornais ou revistas, expõem idéias sobre um tema de interesse, conversam sobre idéias e sentimentos acerca de um filme, por exemplo, sem dúvida, fazem toda a diferença no seu desenvolvimento. Com a Lição de Casa e com qualquer outra atividade escolar, não será diferente. Adultos que se interessam por aquilo que a criança está aprendendo na escola, comentando o que sabem a respeito, disponibilizando fontes de informações, trarão contribuições importantes no desempenho escolar do aluno.

No entanto, interessar-se não significa assumir para si a obrigação de ensinar à criança, conceitos e procedimentos que são da competência da escola. Os adultos não estão proibidos de compartilhar o conhecimento trabalhado na escola com as crianças, mas também não devem se sentir obrigados a fazê-lo.

Quando a criança solicita muita ajuda para realizar a tarefa de casa, os pais devem comunicar a escola para que os motivos sejam analisados. A experiência tem mostrado que, na maioria das vezes, a criança pede ajuda porque tem medo de errar e não suporta a idéia de expor isto ao professor e aos colegas de classe. Ainda não consegue perceber que a tarefa será valorizada pela sua disponibilidade de pensar e buscar soluções com autonomia e não só por apresentar respostas corretas.

A análise desta situação inclui tanto a percepção das práticas e atitudes dos professores e colegas diante do erro ou hipótese da criança, como a percepção dos sentimentos da criança em relação à sua auto-exigência, ou, às vezes, à exigência da família quanto ao desempenho da criança.

A comunicação entre a família e escola é a melhor opção para as dúvidas e dificuldades relacionadas à Lição de Casa, pois cada situação envolve soluções diferenciadas. Há crianças, por exemplo, que a própria escola sugere o acompanhamento de um especialista para a realização da tarefa de casa. Outras, a escola pede para que os pais não interfiram, pois poderão confundir a criança, como é o caso, por exemplo, quando adultos fazem intervenções na escrita da criança quando ela ainda não está alfabética, ou quando tentam ensinar o algoritmo de uma operação quando ela ainda não possui o seu conceito.

Em relação, ainda, à participação dos pais nas tarefas de casa, a orientação da Escola é que não façam pela criança aquilo que ela tem condições de realizar sozinha, mesmo que o produto não corresponda à expectativa dos adultos. Há situações, por exemplo, em que as crianças preparam cartazes, maquetes, para a apresentação do seu Projeto Individual e que são feitos por adultos. Ou então, quando o professor pede uma coleta de dados, que deve ser bem pontual e orientada, e o aluno traz folhas e mais folhas retiradas da Internet, sem significado para ele.

A Lição de Casa deverá permitir ao aluno desenvolver a sua autonomia para aprender. Os adultos contribuirão para isto, na medida em que deixarem as crianças experimentarem aquilo que conseguem fazer sozinhas, e só então, receberem a ajuda necessária.

Com relação à família, ainda, a escola deverá cuidar para que não haja excesso de solicitação. Eventualmente, os pais e parentes podem ser fonte de dados, emitindo opiniões, dando depoimentos, fazendo comentários à respeito de um tema que está sendo trabalhado em classe, porém, isto não deverá ocorrer com freqüência, pois sabemos que nem todos têm a mesma disponibilidade de tempo, podendo trazer constrangimento ao aluno.

Finalizando estas considerações sobre Lição de Casa, saliento a importância do professor dialogar diariamente com seus alunos sobre todas as questões acima expostas. As suas intenções e expectativas, normalmente, não são compartilhadas explicitamente com os alunos. Os alunos, por sua vez, também precisam falar sobre como se sentem diante da tarefa de casa. Isto tudo dá trabalho, gasta muito tempo, mas como diz Madalena Freire, “…aprender não é espontâneo nem natural. Em certo sentido, aprender dói, pois se dá no trabalho com a ignorância. É um confronto com a falta, com o limite, com o desejo. Muita gente imagina, nos desvios do construtivismo, que aprender tem de ser gostoso, prazeroso, lúdico… Não é nada disso: dói. Não é a dor eterna, mas a dor do início da construção da disciplina intelectual. O prazer só vem depois, como um parto.”

Eliane Palermo Romano


UMA HISTÓRINHA EM QUADRINHO

Fonte: Educando Blog

clique na figura para aumentar

One thought on “Lição de casa

  1. Maravilhoso o artigo! Até que enfim alguém admitiu que o aprendizado exige esforço do aluno, pois hoje em dia, muitos defendem que é o professor que tem de fazer tudo enquanto o aluno não faz nada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *