Golpe Militar – 45 anos

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Após 45 anos do ocorrido vejam as considerações expressadas sob diferentes prismas.

Golpe militar completa 45 anos

Primeiras tropas saíram de Juiz de Fora

Kaliandra Casati 25/03/09


Tropas saídas de Juiz de Fora seguindo para o Rio de Janeiro

No próximo dia 31 de Março, completa-se 45 anos do golpe militar de 1964, no qual o Exército depôs o então presidente João Goulart, acusado de tendências comunistas, instalando uma ditadura que perdurou por 21 anos.
Tropas saídas de Juiz de Fora seguindo para o Rio de Janeiro

As primeiras tropas para a tomada do poder pelos militares saíram da 4ª. Região Militar de Juiz de Fora, comandadas pelo general Mourão Filho. O historiador da UFJF Ignácio Delgado explica que tal fato não fazia parte do planejamento original do golpe. “Foi uma decisão do general Mourão Filho, dono de uma velha trajetória como golpista e que não se sabe até hoje se foi tomada por interesse em ganhar posições no novo regime”. De acordo com Ignácio, o comando central do golpe imaginava que a tomada do poder seria em 9 de Abril. “Existia uma vertente mais geral e outra mineira. Após o inflamado discurso de Jango em 30 de março de 64, no Automóvel Clube, o grupo mineiro acabou se adiantando”.

José Márcio Bellozi, auditor da Receita Federal, serviu ao Exército durante 9 anos no período da ditadura e conta ter conhecido vários militares que participaram da tomada do poder. “A maioria dos que foram não tinha noção do que estava fazendo. Nem mesmo os oficias sabiam, apenas a alta cúpula e, assim mesmo, essa só se deu conta de fato do que havia feito após a tomada do poder” – afirma.

Já o militar Daniel Cerqueira defende que o movimento de 64 tem importância maior que um simples acidente em nossa história e não pode ser classificado como golpe nem como revolução. Para ele, Minas foi a escolhida para iniciar o processo por sua localização entre Brasília, sede do Governo Federal e Rio de Janeiro, sede da maior guarnição militar brasileira.

Juiz de Fora seria uma cidade golpista?

A grande mídia e o golpe de 64

Fonte: Carta Maior

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar. A análise é de Venício A. de Lima.

Venício A. de Lima

No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.

Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).

Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.

No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):

O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (…) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (…) a TV Record e a TV Paulista (…), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (…) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (…) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (…) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).

Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.

A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.

Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).

O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.

O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro – “o centro de comunicações mais importante” – afirma:

“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).

No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:

“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).

Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:

“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (…) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).

Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.

A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).

As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).

Em defesa da democracia

Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.

O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.

Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.

Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.

Ziraldo
conta o golpe

Fonte: Educacional


O cartunista tinha 31 anos quando Castello Branco assumiu a Presidência do país. Ziraldo realizou um trabalho intenso de resistência à repressão do regime militar. Fundou, juntamente com outros humoristas, O Pasquim, provavelmente o mais importante jornal não conformista da história da imprensa brasileira.

Quando foi editado o AI-5, muita gente contrária ao regime procurou se esconder para escapar da prisão. Ziraldo passou a noite ajudando a esconder amigos. No dia seguinte à edição do ato, foi preso em sua residência e levado para o Forte de Copacabana por ser considerado um “elemento perigoso”.

O pai do Menino Maluquinho conversou com o portal e contou detalhes do que o golpe de 64 significou para ele. Leia a seguir o depoimento de Ziraldo.

Os militares foram o primeiro segmento da sociedade que se organizou. Eles eram corporativistas e estudavam sua condição dentro da sociedade. Todas as idéias modernas do século XX entraram no Brasil por intermédio dos militares, já que eles eram alguns dos poucos nesse país, até então muito atrasado, que tinham acesso à educação. Desde o positivismo até o comunismo, tudo entrou no Brasil pelos quartéis. Isso deu aos militares brasileiros a idéia de que eles eram os tutores de nossa sociedade.

Toda vez que o Brasil precisava de uma mudança, lá estavam eles. Quem derrubou o Império e proclamou a República foram os militares. Eles assumiram o governo apoiados pela sociedade civil. Desde então, estabeleceu-se uma pseudodemocracia, pois, mesmo que tivéssemos eleições, elas sempre eram fraudadas. Mas eles deixavam os civis no poder. Quando achavam que estes não estavam dando conta do recado, iam lá, davam um golpe, tiravam o presidente, colocavam outro em seu lugar e diziam a ele: “faça seu trabalho direitinho aí”. E isso se repetiu várias vezes, até que, em 64, havia uma consciência bem recrudescida de que eles eram os melhores. Além disso, pairava no ar uma coisa chamada “ameaça comunista”. Temos de entender que, até a Segunda Guerra Mundial, os militares brasileiros eram influenciados pelos europeus. Depois dela, a mentalidade norte-americana dominou os quartéis. Então a “ameaça comunista” era na verdade uma forma de manutenção do regime capitalista.

Mas, após o golpe em 1964, os militares julgaram que não deviam devolver o poder aos civis. Entre eles, havia muita gente mandando. Mesmo com a entrada de Castello Branco, havia muitas pessoas “de olho” na Presidência. E assim, em função da alternância do poder, eles conseguiram criar uma ditadura sem ditador. Um ditador só acabaria forçando um golpe dentro do golpe. Eles inventaram o “ditador de plantão”.

Quando o general Geisel assumiu, já em 1974, os militares acabaram percebendo que a ordem do mundo ia mudar. A ditadura já tinha ultrapassado seus limites, e eles viram que isso de ficar matando gente do mesmo sangue em função das lutas internas não era muito do feitio do brasileiro. Então, criaram a chamada “abertura”. E isso também aconteceu por causa da pressão da sociedade, através do pessoal de esquerda, dos guerrilheiros que morreram e de compositores, artistas, escritores, poetas e cartunistas: todos “enchiam a paciência” dos militares.

Acho que o resultado da ditadura no país foi o aumento da corrupção, que acabou sendo institucionalizada, e o inchaço das cidades, que resultou nessa violência urbana que temos hoje.

Os jovens atualmente não têm muita idéia do que se passou naquele período ou, pelo menos, não conhecem a dimensão da coisa toda. Naquela época, você comovia os jovens cantando “caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não”. Agora é “tô nem aí, tô nem aí” (risos). Mas a culpa não é da juventude, não. É o peso da história. Daqui a pouco, acho que tudo pode mudar novamente.

Elifas Andreato: a arte contra os militares


Elifas Andreato é um dos mais importantes artistas gráficos do país. Nasceu em uma família humilde em Rolândia, interior do Paraná. “Rolândia é uma cidade para onde foram muitas famílias judias alemãs fugindo da Segunda Guerra. Mas eram todas burguesas, intelectuais e artistas. Foi difícil para elas serem colocadas no meio de uma selva quase tropical com enxadas na mão”, conta. Mas ao contrário de seus ancestrais, Elifas trilhou o caminho inverso.

Por causa de sua condição de miséria, foi analfabeto até a adolescência. Acabou tornando-se operário numa fábrica em São Paulo, mas já mostrava talento para a ilustração. Então, conseguiu um estágio na editora Abril. “Comecei a conviver com jornalistas que se tornaram meus grandes mestres”. Sem instrução formal de uma escola de artes ou de uma faculdade, tornou-se referência no meio intelectual e artístico do país e professor de Artes na USP. Hoje, ele dirige a conceituada revista Almanaque Brasil de Cultura Popular.

Sua convivência no meio intelectual, no fim da década de 1960 e início da de 1970, levou-o à militância política e à conseqüente perseguição por parte da ditadura. E é essa história de luta contra a censura, medo da morte e esperança de ver um país livre que Elifas contou ao portal.

O golpe

Quando o golpe aconteceu, em 1964, eu estava saindo de uma fábrica. Eu era um operário. De 1964 a 1967, eu não tinha muita consciência do que estava acontecendo no país. Quando entrei, como estagiário, na editora Abril, em 1967, eu tinha a impressão de que algo ruim tinha acontecido ao país, mas eu era um operário, desinformado e um pouco alienado. Então, comecei a conviver com jornalistas que foram meus grandes mestres. Fiz estágio nas revistas Quatro Rodas, Realidade, Claudia e Veja. Mas foi a partir de 1968, quando os militares decretaram o AI-5, que tive consciência do que tinha acontecido.

O começo da vida de militante e de procurado
Mesmo trabalhando na Abril, eu já militava. Eu e minha ex-mulher, Iolanda Huzak, que era fotógrafa, apesar de na época termos endereço e emprego, abrigávamos militantes clandestinos e produzíamos, ainda no mimeógrafo, em nossa casa, o jornal da Ação Popular (AP). Fazíamos isso com o repórter Carlos Azevedo, que na época trabalhava na revista Realidade. Ele escrevia o jornal, e eu o diagramava e ilustrava.

Por volta de 1969, fiz, juntamente com Azevedo, o Livro Negro da Ditadura Militar, em estêncil, uma máquina primitiva que tem uma tela fina em que se pode desenhar. Ali, criei aquela famosa caveira com o quepe militar. Logo depois, um de nossos companheiros da clandestinidade, chamado Aldo Arantes, hoje político em Curitiba, “caiu” (expressão que se dava para quem era preso pelos militares). Ele acabou confessando, sob tortura, quem eram os autores do livro. Então eu, Azevedo e outro jornalista, Raimundo Pereira, passamos a ser perseguidos pelo regime. Fomos seguidos durante muito tempo para sermos pegos juntos. Queriam fazer conosco uma matança como a que fizeram na Rua Pio XI, em São Paulo. Nessa ocasião, acabei não indo à reunião por causa de um problema que tive na Abril e escapei. Naquele dia, os militares mataram militantes ligados ao PC do B. [O episódio a que Andreato se refere aconteceu em 16 de dezembro de 1976, quando a casa onde estavam reunidos os dirigentes do PC do B, na Rua Pio XI, no bairro da Lapa, em São Paulo, foi cercada por agentes do DOI-Codi, que assassinaram Ângelo Arroyo, Pedro Pomar e João Baptista Franco Drumond.] Felizmente, nunca fomos surpreendidos juntos, mas soube que tentaram nos pegar em uma cilada para justificar uma matança como aquela.

A luta do Jornal Opinião contra a censura
Continuei assim até 1972, quando saí da Abril e fui fazer o Jornal Opinião, no Rio de Janeiro. Foi quando comecei a conviver com a censura diretamente dentro da redação. Nós tínhamos, no início, algumas formas de a burlar, como fazia o Estado de S.Paulo, publicando receitas no lugar das matérias censuradas. Mas nós éramos um jornal de oposição declarada. Às vezes, nem dormíamos, pois éramos obrigados a fazer duas ou três capas de uma mesma publicação. Quando não censuravam uma ilustração, censuravam parte ou mesmo textos inteiros, então tínhamos de criar anúncios no lugar deles, por exemplo. Mas várias vezes conseguimos ludibriar a censura.

Naquela época, a gráfica que utilizávamos era a do Jornal do Brasil, que ficava na Lapa, bairro boêmio do Rio. As prostitutas e os travestis acabaram tornando-se nossos protetores. Toda vez que a polícia chegava, eles davam um jeito de nos avisar do perigo.

Quando o jornal saía, um censor verificava se aquilo que tinha sido aprovado era o que havia sido impresso.

Existe um momento que me marcou muito por causa disso. Quando D. Paulo Evaristo Arns resolveu rezar uma missa em homenagem ao estudante Alexandre Vanucchi, morto pela repressão militar, decidimos produzir uma reportagem sobre isso. Eu desenhei D. Paulo a traço na redação e, na gráfica, apliquei a cor vermelha que aparece na roupa do cardeal. Quando o censor viu aquilo impresso, a primeira coisa que ele fez foi me dar um tapa na cara! Ele se sentiu ludibriado com aquilo, pois tinha aprovado um desenho preto e branco. Então, ele me pegou pelos fundilhos e, juntamente com Raimundo Pereira e Tarik de Souza, jogou-me num camburão. Ficamos presos umas três horas. Era humilhante o que eles faziam. Além de baterem, o interrogatório era extremante violento e repleto de insultos.

A partir desse momento, a censura sobre nós ficou muito mais acirrada. O sofrimento era ter de modificar o trabalho até que a capa ou a ilustração fosse aceita e esperar que na saída da máquina os primeiros exemplares não fossem alterados. Respeitando isso, as coisas se normalizaram, se é que se pode chamar de normal haver uma pessoa dentro da redação dizendo o que pode e o que não pode ser feito. Certa vez, Tarik de Souza produziu uma matéria falando de uma gravação da música Atrás da Porta, de Francis Hime e Chico Buarque, feita pela Elis Regina. A censura cortou o nome de Chico Buarque, pois o dele era proibido. Então, foi publicado Atrás da Porta, de Francis Hime.

Outras atividades
Em 1972, juntamente com Iolanda Huzak e Luis Trimano, o Castor, organizei uma comemoração dos 50 anos da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Juntamos um grande núcleo de artistas na Fundação Getúlio Vargas e, claro, lá estava a censura. Foi um evento muito difícil de realizar, pois os agentes que ficavam infiltrados no movimento estudantil faziam de tudo para que houvesse algum episódio que justificasse uma reação por parte dos militares.

Certa vez, num show de Milton Nascimento, quando as cortinas se abriram, um sujeito apareceu e colocou a Bandeira brasileira na mão de Milton, que olhou aquilo e fez menção de jogar a Bandeira no chão. Mas eu cheguei a tempo de pegá-la e evitar que a polícia reagisse. Vale lembrar que, naquele tempo, os símbolos nacionais tinham sido roubados da gente. Eram todos da ditadura, e a gente repudiava o Hino, a Bandeira, etc. Como essa comemoração durou um mês, eu tive de tomar cuidado para que os estudantes não aceitassem esse tipo de provocação, que era o que eles queriam. Foi o aconteceu no Roda Viva, por exemplo. [Em 1968, um grupo de extrema direita chamado Comando de Caça aos Comunistas invadiu um teatro onde a peça Roda Viva, de Chico Buarque, era encenada, destruiu o cenário e espancou os atores.]

Então, ampliei muito minha área de atuação. Fui ilustrar livros, com destaque para uma coleção da Ática que me tornou muito conhecido entre os escritores do momento. Era a coleção Nosso Tempo, que me deu oportunidade de trabalhar ao lado de gente como Moacyr Scliar e Clarice Lispector. Então, passamos a usar metáforas, tanto eu, nas ilustrações, quanto os escritores, nos textos.

Passei a fazer cartazes de teatro. Como quase sempre os espetáculos eram censurados, os cartazes passavam pelo mesmo crivo. Quando o diretor Fernando Peixoto montou a peça Mortos sem Sepultura, do Jean-Paul Sartre, que se passa durante a Segunda Guerra, fiz um cartaz com um sujeito num pau-de-arara e, para disfarçar, botei um soldado alemão na frente. A censura viu aquilo, foi ao teatro, apreendeu os cartazes e mandou chamar Sérgio Vieira da Motta, que foi ministro de FHC e, na época, era dono da produtora Difusão, responsável pela peça. Ele reuniu a equipe e fomos para lá. Quando me perguntaram o porquê do pau-de-arara no cartaz, aleguei que se tratava de uma peça de um autor francês, que se passava na França durante a Segunda Guerra. E o censor respondeu: “vamos recolher, porque pau-de-arara é uma invenção brasileira”.


Medo da morte
Quando Wladimir Herzog foi assassinado, todas as pessoas envolvidas na militância e os simpatizantes ficaram apavorados. Herzog era um homem que trabalhava no Jornal da Cultura, tinha endereço e era conhecido. Foi o período mais marcante para todo esse grupo ao qual eu pertencia. Nós também começamos a ser perseguidos, mas felizmente a repercussão do assassinato dele, já no governo Geisel, provocou a demissão do comandante do Segundo Exército, e as coisas aos poucos foram amenizando-se. Mas, durante uns 15 dias, temi muito pela minha vida, achando que todos teríamos o mesmo fim. Havia uma decisão, que até hoje não se sabe de onde partiu, de aproveitar uma abertura para exterminar todos aqueles que fossem uma ameaça ao futuro do regime.

Aprendizado com a censura
Minha convivência com a censura tem, claro, um aspecto ruim, mas certamente foi o período de maior fertilidade e criatividade da minha geração. Ela nos instigou a superar todas as dificuldades para fazermos a nossa arte registrar aquele momento da história. Havia maior cumplicidade e solidariedade entre os artistas por causa da força que a censura exercia sobre nós, em todos os campos, seja na música, no teatro, no cinema ou na imprensa.

Naquele momento, quando fundei o Jornal Opinião, descobri que a ditadura montou um país que começava a ser retratado pela Rede Globo como o país ideal, o país do milagre. Então, a realidade que a fotografia não oficial registrava era muito inconveniente, havendo grande censura nessa área. Percebemos nisso a chance para resgatar os ilustradores, caricaturistas e chargistas. Loredano, Castor, Chico Caruso, Angeli, Laerte, todos começaram ali. Era a oportunidade de, com esperteza, fazer ressurgir a ilustração na imprensa brasileira.

A geração atual

O golpe para a molecada de hoje é apenas um momento ruim da história. É o mesmo que representou para mim, que estou com 57 anos, a Revolução de 30. Foi somente um fato histórico. E, para a meninada, é a mesma coisa. Está lá, registrado, sabe-se das barbáries cometidas, mas isso não chega a incomodar. A não ser quando se narra qualquer uma dessas atrocidades, pois é difícil para eles acreditarem, já que o país hoje vive uma democracia que permite as diferenças e as divergências. Parece que ele tem peso e significado apenas para quem o viveu.

Se o golpe não tivesse acontecido…
Certamente estaríamos infinitamente melhor. Os militares destruíram o ensino público, que era o que tínhamos de melhor no Brasil pré-revolução de 64. Tivemos apenas o desenvolvimento do que era necessário para a construção da imagem da ditadura, como as comunicações, por exemplo. Em contrapartida, os danos causados foram imensos. Se não fosse pelos militares, nossa democracia teria avançado, nossa economia não estaria engatinhando (não estando tão desigual e miserável) e o ensino público teria avançado, criando uma população mais educada e mais esperançosa. Foi um golpe que favoreceu as elites em detrimento das camadas mais pobres da população.

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