
As crianças antigamente entravam para a escola quando completavam sete anos. Somente então tomavam contato com a alfabetização e outros processos de aprendizagem. Hoje, em razão da mulher também trabalhar fora para contribuir no orçamento familiar, as crianças vão para a escola assim que acaba a licença maternidade.
Até aqui posso afirmar que não há nada de preocupante.
Ocorre que, desde o final do século passado, alguns pais iniciaram cobranças no processo de alfabetização antes dos seis anos. Eles ficam maravilhados e seu ego quase que explode quando exibem seus filhos, menores de quatro anos, que já sabem escrever o próprio nome e o nome de todos os familiares, bem como sabem contar e identificar os numerais até 15, sabem o nome das figuras geométricas e dos sólidos geométricos e muitos outros conteúdos que incorporam a “apresentação”.
Os pais, embora em sua maioria não tenham conhecimento pedagógico, exigem resultados palpáveis, ou seja, querem ver seus filhos escrevendo, contando até15, 20… e se envaidecem como se seus filhos fossem “objetos” de apreciação.
Muito mais importante do que escrever o nome e contar com apenas 2 ou 3 anos é a preparação físico-motor-intelectual que se faz com a criança.
Antigamente as crianças brincavam na rua e desenvolviam habilidades que auxiliavam no processo de alfabetização. Ao brincar de amarelinha, por exemplo, a criança desenvolvia a noção espacial e lateralidade, o ritmo e a coordenação, quesitos fundamentais utilizados pela criança quando inicia o uso do caderno. Se a criança tem uma noção espacial bem desenvolvida ela saberá se situar no caderno, que apresenta um espaço bem limitado. Se ao brincar ela desenvolveu sua lateralidade, ela saberá se posicionar escrevendo da esquerda para a direita. Se seu ritmo foi bem estimulado através das brincadeiras, ela terá uma boa movimentação em sua coordenação motora quando iniciar a grafia das primeiras letras obtendo um movimento contínuo e não seccionado como é o caso das crianças que “desenham” letras em sequencia previamente memorizadas.
A essência de uma boa alfabetização está justamente neste preparo prévio da criança.
Na Educação Infantil são proporcionadas brincadeiras com objetivos pedagógicos onde a criança desenvolve estas habilidades de forma lúdica.
Precisamos mudar o conceito de menosprezo quando se referem que a criança vai para a “escolinha” só para brincar. Ela vai mesmo para a escola para brincar. Esta brincadeira é muito séria e comprometida com o desenvolvimento da criança. Será através desta brincadeira que ela será preparada para a alfabetização.
Apressar este processo pulando fases pode promover aos pais momentos de exibicionismo, porém para a criança acabará acarretando sequelas, muitas vezes, difíceis de serem superadas.
Posso parecer intransigente, mas é que acompanho, no meu dia-a-dia na escola, situações semelhantes onde pais estão mais preocupados com a apresentação que farão dos filhos nos finais de semana do que com o desenvolvimento propriamente dito.
Educação é assunto sério e a criança também!