Grafismo infantil

Realizei um trabalho de pesquisa durante cinco anos o qual intitulei Evolução do Grafismo. Segue o resultado desta pesquisa que foi publicada na Revista do Professor nº 86, abril a junho de 2006.

Evolução do grafismo

Já dizia Saul Steimberg que o desenho é a forma de raciocinar sobre o papel. Desenhar é exercitar a inteligência. Na verdade o desenho não reproduz as coisas que vemos mas traduz a visão que se tem delas. A elaboração de uma obra se inicia no momento em que as imagens captadas pelo artista, as formas que compõe esta imagem começam a ser traduzidas e ganham uma conotação particular, individualizada.

Podemos dizer que o desenvolvimento do grafismo é a revelação da natureza emocional e psiquica da criança. É a sua linguagem gráfica onde deixa registrado suas idéias, suas vontades e suas fantasias.

É através da evolução do grafismo que podemos acompanhar as mudanças e aprimoramentos dos desenhos da criança.

Por volta de um ano e meio, a criança já explora o meio à sua volta, imita o que as pessoas fazem, descobrindo, dessa forma, que também é capaz de fazer coisas.
Se dermos um lápis e um papel para ela, ela descobrirá que é capaz de deixar ali, naquele pedaço de papel, sua marca. Se surpreenderá que ao repetir o movimento, mais uma marca surgirá, e assim ela agirá com gestos sucessivos despertando o interesse e o gosto por esta espetacular descoberta. Se dermos à ela uma caixa de giz de cera com cores variadas, ela irá usar cada uma das cores, sem qualquer pretensão de expressar coisa alguma, apenas repetirá inúmeras vezes este gesto para certificar-se do seu domínio sobre o lápis, o papel e sobre seu próprio corpo. É a conhecida fase das garatujas

À medida em que ela for interagindo com o meio perceberá que pode fazer novos movimentos, ainda sem qualquer compromisso com a representação. Ela irá perceber a relação que existe entre o seu movimento e as marcas que deixa. Isto propiciará um aumento do seu controle sobre a mão. Passarão então a surgir os movimentos em espirais e caracóis que contribuirão muito para o aparecimento do primeiro círculo fechado. Isto deverá ocorrer por volta dos 3 anos.
Esta descoberta para a criança é muito importante, pois evidencia a descoberta da forma. Na seqüência estas garatujas começam a ganhar nomes e detalhes como olhos, pernas e braços e até cabelos. Aqui já começa a existir uma intenção de linguagem escrita, pois ela irá desenhar os que estão mais próximos, como pai, mãe, irmã bem como, ela mesma. A cor usada para desenhar e pintar não condiz ainda com a realidade. Nesta fase a criança ainda está descobrindo as cores, por isso a necessidade de experimentá-las.

Nesta fase já se pode incentivar a criança em sua linguagem oral, estimulando-a a falar sobre o que ou quem desenhou.
O próximo passo é a utilização das linhas perpendiculares, paralelas, curvas e inclinadas, demonstrando um amadurecimento das suas habilidades. Passa da simples ação para um processamento de idéias do que pensa e do que observa. Os desenhos já passam a significar alguma coisa. Eles não estão somente ali, eles “fazem” alguma coisa ali.

Quanto mais a linguagem oral for estimulada nesta fase, melhor será o seu desempenho na evolução da linguagem escrita (desenhos).
Perto dos cinco anos, ela já desenha pessoas (inclusive com corpo) e objetos, porém todos soltos, como se estivessem voando. Não que ela tenha a intenção de que voem, mas ela ainda não consegue abstrair que os desenhos tem que estar apoiados numa grama ou numa estrada ou num chão qualquer. Aqui ainda não existe a relação com o real e sim com o emotivo. Ela passa a desenhar não só o que vê mas também o que imagina. No que se refere à linguagem oral, ela já sente prazer em contar o que desenhou e já começa a dar “corpo” à sua história.

Na evolução, ela começa a ordenar seus desenhos dando origem “as cenas”. Ela distribui tudo que fica no chão, na parte de baixo do papel, bem rente ao final da folha e lá em cima, coloca o sol, as núvens e os pássaros. As cores já começam a se relacionar com o real e inicia-se o primeiro passo para a proporção. A proporção está ligada tanto ao tamanho real quanto ao tamanho emocional. As pessoas mais queridas são desenhadas em tamanho maior que as de menor afinidade. Nas situações de medo, sempre o fato gerador é destacado pelo tamanho.

Concomitantemente, a linguagem oral também se amplia surgindo as histórias sobre seus desenhos. As histórias já começam a ter início, meio e fim.
Depois disso, a criança vai amadurecendo os detalhes tentando chegar o mais próximo da realidade. Esta fase é mais lenta em relação ao desenho (linguagem escrita), ficando madura por volta dos nove anos, mas muito mais rápida quanto à linguagem oral. A criatividade está à flor da pele. Ela consegue criar histórias incríveis. Aqui a história já tem um título e há o destaque dos personagens que irão compor essa história. Já começa a contar usando o “Era uma vez” e após o desenrolar de toda a história, consegue terminar resolvendo todos os problemas e dizendo que “viveram felizes para sempre”.

Para a criança de 6 anos, que está cursando o Pré e que já está sendo alfabetizada, é muito interessante que ela seja incentivada, após terminar o desenho, ao invés de contar para a professora a sua história, que ela mesma tente escrevê-la no verso da folha. É mágico o resultado pois é nesse momento que ela tem a real consciência de que tudo que ela fala pode ser colocado no papel, agora, através da escrita.
É o ser criança caminhando rumo ao ser adulto…

Cybele Meyer – professora, advogada,
artista plástica, psicopedagoga escritora,
palestrante e formadora na USP

Trabalhos desenvolvidos durante a pesquisa

Foram selecionados trabalhos de crianças de 1 a 6 anos ou seja do Mini maternal até o Pré.

Estes trabalhos estão dispostos da seguintes forma: o grafismo feito pelo aluno no início do ano (frente e verso com data) e o grafismo feito pelo mesmo aluno só que no mês de agosto (frente e verso com data), para que se possa avaliar sua evolução.

As referências que estão entre aspas são tiradas do texto acima, apenas para fundamentar o trabalho. Os comentários sem aspas são alusivos ao grafismo do aluno apresentado.
No verso do grafismo é registrado tudo o que ele descreve sobre o desenho realizado, como incentivo ao desenvolvimento da linguagem oral.


Maria Fernanda – 1 ano e 8 meses (mini Maternal) “Se dermos um lápis e um papel para ela, ela descobrirá que é capaz de deixar ali, naquele pedaço de papel, sua marca. Se surpreenderá que ao repetir o movimento, mais uma marca surgirá, e assim ela agirá com gestos sucessivos despertando o interesse e o gosto por esta espetacular descoberta.”


Maria Fernanda – 1 ano e 8 meses Grafismo realizado em 22/02/2005. Neste primeiro momento não existe qualquer pretensão que não seja o simples movimento. Dessa forma não existe qualquer referência na interpretação do desenho (verso)


Maria Fernanda – 2 anos e 2 meses. “Ela irá perceber a relação que existe entre o seu movimento e as marcas que deixa. Isto propiciará um aumento do seu controle sobre a mão”.


Maria Fernanda – 2 anos e 2 meses. Grafismo realizado em 19/08/2005 Já começa a existir uma intenção de registro – Uma casa (verso)


Rafael – 2 anos e 5 meses ( Maternal ) “ Passarão então a surgir os movimentos em espirais e caracóis que contribuirão muito para o aparecimento do primeiro círculo fechado.”


Rafael – 2 anos e 5 meses Grafismo realizado em 22/02/2005 – Começamos a notar a evolução quanto ao número de personagens que começam a integrar o grafismo: o elefante, o macaco e o leão. (verso)


Rafael – 3 anos – Grafismo realizado em 19/08/2005 – Com o aparecimento dos círculos fechados, por volta dos 3 anos,evidencia a descoberta da forma, para a criança


Rafael – 3 anos – Grafismo realizado em 19/08/2005. Neste momento a criança já começa a desenhar as pessoas que vivem a sua volta e tudo o que possa ter um significado especial. A evolução tanto da linguagem gráfica quanto da linguagem oral, continua. (verso)


Lucas – 3 anos e 6 meses ( Jardim I) Grafismo realizado em 22/02/2005 – “Na seqüência estas garatujas começam a ganhar nomes e detalhes como olhos, pernas e braços e até cabelos”


Lucas – 3 anos e 6 meses ( Jardim I)Começa a existir uma integração da linguagem gráfica com a linguagem oral.Houve a representação marcante do som – as bolas do som – (é uma criança que adora música), e as pessoas no final da folha, ouvindo o som.(verso)


Lucas – 4 anos (Jardim I) “O próximo passo é a utilização das linhas perpendiculares, paralelas, curvas e inclinadas, demonstrando um amadurecimento das suas habilidades .” Ela pode se representar no desenho escrevendo o próprio nome (como aconteceu neste caso)


Lucas – 4 anos (Jardim I ) – Grafismo realizado em 17/08/2005 “Passa da simples ação para um processamento de idéias do que pensa e do que observa. Os desenhos já passam a significar alguma coisa. Eles não estão somente ali, eles “fazem” alguma coisa ali.” Consegue relacionar tudo o que registrou e refere-se novamente à música.(verso)


Melissa – 4 anos e 7 meses (Jardim II). “Perto dos cinco anos, ela já desenha pessoas (inclusive com corpo)… Aqui ainda não existe a relação com o real e sim com o emotivo.


Melissa – 4 anos e 7 meses (Jardim II). (Grafismo realizado em 23/02/2005 “No que se refere à linguagem oral, ela já sente prazer em contar o que desenhou e já começa a dar “corpo” à sua história.” Aqui já começam a dar um título à história e gostam muito de começar com Era uma vez…(verso)


Melissa – 5 anos (JardimII)“Na evolução, ela começa a ordenar seus desenhos dando origem “as cenas”. .. As cores já começam a se relacionar com o real e inicia-se o primeiro passo para a proporção.”


Melissa – 5 anos (Jardim II) Grafismo realizado em 21/08/2005 “…a linguagem oral também se amplia surgindo as histórias sobre seus desenhos. As histórias já começam a ter início, meio e fim. “ (verso)


Larissa – 5 anos e 9 meses (Pré) “Depois disso, a criança vai amadurecendo os detalhes tentando chegar o mais próximo da realidade. … A criatividade está à flor da pele “


Larissa – 5 anos e 9 meses (Pré) – Grafismo realizado em 23/03/2005 “Ela consegue criar histórias incríveis. Aqui a história já tem um título e há o destaque dos personagens que irão compor essa história.” (verso)


Larissa – 6 anos (Pré) “Para a criança de 6 anos, que está cursando o Pré e que já está sendo alfabetizada, é muito interessante que ela seja incentivada, após terminar o desenho, ao invés de contar para a professora a sua história, que ela mesma tente escrevê-la, no verso da folha.”


Larissa – 6 anos (Pré) – Grafismo realizado em 26/08/2005 “É mágico o resultado pois é nesse momento que ela tem a real consciência de que tudo que ela fala pode ser colocado no papel, agora, através da escrita.” É muito importante que nenhuma correção seja feita nesta fase de iniciação à escrita, para que não seja criado um bloqueio (medo de errar) e que este sentimento venha a inibir a criatividade,.

15 thoughts on “Grafismo infantil

  1. GOSTARIA DE RECEBER MAIORES INFORMAÇÕES E TRABALHOS SOBRE GRAFISMO PARA O 2º ANO

  2. Achei muito interessante e completo
    Parabéns

    Cybele Reply:

    Olá Maria, tudo bem?

    Obrigada pelo carinho do comentário e por acompanhar o Educa Já!
    Volte sempre!
    abraços
    Equipe Educa Já!

  3. Muito bom, vou compartilhar com as alunas do Curso Normal.

    Cybele Reply:

    Olá Mari, tudo bem?

    Obrigada por enriquecer o nosso espaço com seu comentário e por compartilhar.
    Continue acompanhando o Educa Já!
    abraços
    Equipe Educa Já!

  4. Adorei! Vou usar em um texto informativo aos pais dos meus alunos.

    Cybele Reply:

    Olá Paula, tudo bem?

    Obrigada pelo carinho de sempre.
    Continuamos juntas em 2013.
    abraços
    Cybele Meyer e Equipe Educa Já!

  5. Olá, estou pesquisando para fazer minha monografia da Pós sobre “A evolução do grafismo: Crianças de 0 a 6 anos”.
    Adorei o trabalho aqui apresentado e gostaria de saber se podem me indicar bibliografias sobre o assunto.
    Grata:
    Ana.

    Cybele Reply:

    Olá Ana Lucia, tudo bem?

    Obrigada pelo carinho do comentário.
    Continue nos acompanhando, pois sempre teremos novidades.
    abraços e sucesso!
    Equipe Educa Já!

  6. são poucos aqueles que se interessa em mostrar seus trabalhos. Parabens . preciso de um material para mostrar a alguns alunos e quero aprender mais um pouco . Agradesso se puder me mandar um material

  7. Parabéns, era o que procurava para compartilhar com as colegas de curso, na aula de Recursos 1 para To

  8. Um trabalho muito bom, que mostra resultado com as crianças…gostei muito.

  9. Parabéns pelo seu trabalho!
    Seria possível você disponibilizar cópia pdf na publicação de seu trabalho nesta revista Professor que você se referiu?
    Obrigada

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