Falando do Ensino Médio

Não tenho como começar a falar sobre Ensino Médio e não me reportar à qualidade do ensino fundamental, pois um é conseqüência do outro. Temos um ensino fundamental deficitário o qual o aluno vai somando lacunas no decorrer dos anos e quando chega na conclusão do ensino fundamental se vê dentro de um enorme “buraco de dificuldades” que acaba se sentindo incapaz de continuar a estudar e ingressar no Ensino Médio.

Agora pergunto: Tornar obrigatório o cursar o Ensino Médio garantirá uma melhor educação do nosso povo?

As estatísticas apontam que 1,5 milhões de jovens na faixa de 15 a 17 anos estão fora da escola. Qual o motivo que leva um jovem a abandonar os estudos? Segundo os próprios jovens, além de um ensino deficitário no Fundamental é a ausência de sentido que o frequentar a escola faz na vida deles. Nada é acrescentado uma vez que a didática da escola não consegue caminhar em sintonia com os avanços vivenciados pela sociedade. A escola continua com o mesmo formato tanto físico (cadeiras enfileiradas, giz, lousa, etc.) quanto didático (o professor fala e o aluno escuta), caminhando à margem do que está acontecendo ao seu redor.

Há uma dicotomia no frequentar a escola, pois ela tem como objetivo preparar o aluno para viver e produzir em sociedade, e o aluno ao freqüentar a escola se sente como se estivesse num mundo à parte, pois a escola não acompanha a evolução, como o uso das novas tecnologias, permanecendo estagnada em suas estruturas arcaicas.

Nos dias de hoje tudo caminha muito rápido e com isso a escola fica cada vez mais distante da realidade vivida pelo jovem estudante. Ainda presa a currículos disciplinares previamente elaborados, embasados em definições e conceitos, a escola se mantém distante dos problemas socioambientais provocados pelo progresso desenfreado perdendo a oportunidade de “educar” conscientemente o aluno para uma vivência harmoniosa entre o homem e a natureza.

Também não prepara o aluno para a multiplicidade de profissões que surgiram ao longo destes últimos anos promovendo condições para que possa optar, dentre tantas, pela que o motivará a cursar uma universidade ou se especializar através de cursos profissionalizantes, construindo seu projeto de vida.

 

Na verdade as escolas com Ensino Médio preparam o aluno somente para que este passe no exame vestibular, de preferência nas primeiras colocações, e com isso possam se promover em cima do índice de aprovação alcançado. São praticamente três anos de “treino” para a “grande apresentação” que trará uma satisfação momentânea ao candidato e um retorno eficaz à escola. O objetivo maior que deveria ser o “preparar” fica num plano secundário.

Diante destes resultados desanimadores é preciso que a escola desista de vez de enxergar, desde a Pré-escola até o Ensino Médio, a classe como um todo e passe a ver cada aluno como único. O respeitar o tempo de cada um é fundamental para o sucesso do aprendizado. Também saber enxergar quais os interesses, as habilidades, a diversidade e a realidade da comunidade em que a escola está inserida, e se apropriar destes itens utilizando-os como fonte inesgotável de aprendizagem.

A escola tem que propiciar e ensinar o aluno a pensar, desenvolvendo habilidades cognitivas ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades sociais estimulando a inteligência emocional que envolverá o controle dos sentimentos, a automotivação, a empatia. Enfim, deverá propiciar que o aluno se torne capaz de conviver e produzir em sociedade.

Adequando o Ensino Médio dentro da realidade tornando-o mais atraente, a obrigatoriedade se tornará um quesito “pequeno” uma vez que eles mesmos se sentirão motivados a cursar.

Para finalizar gostaria de citar a socióloga Helena Singer fundadora do Instituto Politeia Educação Democrática e diretora pedagógica da Cidade Escola Aprendiz  que diz:

“Considerando que o objetivo maior do ensino médio é possibilitar aos estudantes o desenvolvimento das competências necessárias para o mundo do trabalho e a construção de um projeto de vida, o educador tem como principal tarefa acompanhar um processo de emancipação que vem da autoconfiança, do prazer do aprendizado, da motivação e do engajamento no próprio processo de conhecimento e na superação de desafios. Este processo começa com o acolhimento e continua com a descoberta dos talentos que irão possibilitar a realização de projetos de vida. Afinal, o aprendizado é permanente, começando no nascimento, e talvez por isso mesmo não faça muito sentido falar em educação básica, ensino médio, fim de etapa…”

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