Educação tem que usar tecnologia. Mas como?

 

Foto: Mauricio Oppitz

Se fossemos eleger qual o assunto mais abordado nos últimos tempos, com certeza seria o de que o professor deveria utilizar os recursos tecnológicos em sala de aula. Inúmeros artigos, matérias jornalísticas, programas, vídeos abordam o tema pelo mesmo foco:

  • De que o aluno precisa que o professor fale a mesma linguagem dele;
  • Que o professor precisa utilizar a tecnologia como veículo de interação;
  • Que as aulas serão muito mais motivadoras usando a tecnologia;
  • Que esta geração é tecnológica e que não se interessa por “cuspe e giz”;
  • Que o professor não se dispõe a aprender a usar a tecnologia

e tantas outras falas que se repetem a cada novo artigo.

Porém, ninguém aponta como utilizar recursos tecnológicos, que não foram criados para o uso pedagógico, e integrá-los numa sala de aula onde 35 ou até 45 alunos tenham que usá-los em sintonia, concomitantemente, desenvolvendo habilidades como interação, colaboração e cooperação.

Sim, é claro que sabemos que algumas das pessoas que escrevem os artigos, as matérias e elaboram os vídeos nunca entraram em sala de aula e não avaliam como é envolver tantas pessoas (alunos) num mesmo assunto usando uma ferramenta que não foi criada para este fim. Também sabemos que a intenção é a melhor e que “palpites” são sempre muito bem-vindos.

Não pensem que sou contra o uso da tecnologia na educação. Quem me conhece sabe muito bem o quanto sou favorável e o quanto me empenho para que a escola, como um todo, integre o uso da tecnologia como mais um recurso para promover a aprendizagem. Pois é justamente por ser favorável, que me ponho a refletir sobre esta realidade. Uma coisa é falar que tem que usar e outra completamente diferente é orientar sobre como deve usar.

Por ser um assunto novo, há pouquíssimos exemplos disponibilizados e muitos deles nada eficazes. Há escolas que dizem utilizar o blog como ferramenta de aprendizagem e reproduzem nele diferentes textos, imensos, sem qualquer interação, fazendo do blog um livro virtual. O que muda para o aluno é que ao invés de ele ler na horizontal passará a ler na vertical. Outras escolas fazem do blog um mural de avisos com datas para as festividades, reuniões pedagógicas, reuniões de pais e até acesso à nota. Sim, a escola está informatizada, porém não está usando a tecnologia como recurso pedagógico e muito menos para promover a aprendizagem.

Muitos professores usam o blog para compartilhar suas atividades e experiências desenvolvidas em sala de aula. O meu blog mesmo, o Educa Já!, reúne diferentes postagens de diferentes educadores sobre um mesmo assunto auxiliando o professor a desenvolver atividades similares com seus alunos. Quando criei o blog eu tinha exatamente esta intenção, pois já não atuava mais em sala de aula do ensino fundamental, porém conheço a dinâmica muito bem, pois passei por todas as etapas da educação, desde a Educação Infantil até a Graduação passando por praticamente todas as séries do Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio. Sempre tive por objetivo conhecer na prática o cotidiano de cada uma das séries também em razão do meu estudo sobre as diferentes linguagens usadas para o exercício da pedagogia em sala de aula. Saber se comunicar consiste em falar a linguagem que o aluno entende e entender a linguagem que o aluno fala. O conhecimento e desenvolvimento desta competência e habilidade propiciarão ao professor levar o aluno a desenvolver-se cognitivamente, socialmente, produtivamente e pessoalmente tornando-se protagonista da sua aprendizagem.

O professor, ao se apropriar das diferentes formas de linguagens, estará apto a integrar as novas linguagens tecnológicas ao ambiente escolar estreitando ainda mais o relacionamento com seus alunos. E é justamente sobre isso que trata o meu mais recente livro, Inteligências na Prática Educativa, que será lançado em outubro, com o qual espero oferecer caminhos e subsídios para auxiliar professores, pais e alunos na reflexão e apropriação destas linguagens propiciando uma comunicação de qualidade entre professor e aluno e vice e versa.

Com base nas diferentes formas de linguagem que habita uma sala de aula em razão da diversidade ali existente, o professor poderá propor atividades utilizando recursos tecnológicos e estabelecendo a interação entre conteúdo e alunos.

Vejamos:

  • O Orkut é a rede social mais popular entre os adolescentes, então nada melhor do que utilizá-lo com fins pedagógicos, afinal eles já sabem exatamente como funciona. Se você navegar pelas comunidades que a garotada é fã, você verá uma enormidade de interação nos Fóruns criados para debates e exposição de ideias. Uma boa sugestão é criar uma comunidade em que os próprios alunos participem desde a escolha do nome. Em seguida poderá iniciar com um texto atual e que desperte o interesse dos alunos na reflexão e na partilha de opiniões. Assim que o professor ganhar o interesse do aluno ele poderá discutir neste espaço os temas abordados em sala de aula. Esta discussão poderá ser assíncrona e poderá ser usada, inclusive, como avaliação, propiciando ao professor detectar o quanto o tema foi apropriado pelos alunos e favorecendo a retomada dos pontos que ficaram obscuros. Nesta sugestão as habilidades do século XXI estão sendo estimuladas como a reflexão, a interação, a colaboração, a formação de opinião, a linha de raciocínio (com começo, meio e fim), a argumentação além do desenvolvimento da linguagem escrita. Exercitando estas habilidades o aluno está se apropriando do assunto em evidência agindo como protagonista da sua aprendizagem. O professor pode designar que esta comunidade seja frequentada somente por seus alunos, porém pode convidar alunos de outras séries e até de outras escolas para enriquecer ainda mais as interações.
  • O Twitter é mais uma rede social que algumas pessoas ainda manifestam resistência, porém sua eficácia é única, já que desenvolve o poder de síntese fazendo com que a pessoa aprenda a manifestar sua opinião de forma sucinta. O professor poderá propor que os alunos partilhem no Twitter o que aprenderam sobre um determinado assunto. Eles poderão questionar, deduzir, analisar, fundamentar em diferentes momentos do dia retuitando, inclusive, as falas dos colegas que eles mais se identificam. Vamos supor que uns três alunos retuitaram uma dúvida manifestada por um dos colegas. É sinal de que aquele ponto não ficou claro, servindo de sinalizador para o professor retomar e sanar as dúvidas. O próprio professor pode lançar desafios que devem ser discutidos no Twitter. No caso do uso do Twitter com fins pedagógicos deve ser acordado entre os alunos que somente deverão seguir os colegas (da mesma escola e de outras caso seja combinado anteriormente) e o(s) professor(es), para que não haja interações não oportunas. Tanto professor quanto aluno pode levantar assuntos a serem refletidos. O Twitter propicia também que se compartilhe fotos e vídeos usando o Twitpic e há também a possibilidade de realizar uma apresentação através da Twitcam o qual o professor aborda um determinado tema e os alunos, cada qual do lugar onde estiver, podem interagir via Twitter fazendo perguntas, refletindo e comentando durante a apresentação.
  • O Blog é uma ferramenta bem conhecida do professor e pode ser muito explorada pedagogicamente. Numa aula em que os alunos estão diante dos computadores o professor pode propor a realização de um texto colaborativo em que cada aluno primeiro fale a sua contribuição e em seguida passe a escrevê-la na caixa de comentários. Enquanto ele está escrevendo o outro aluno contribui oralmente e em seguida, também passará a registrar o que falou nos comentários. Quem ainda não contribuiu está atento ao que o colega está falando para poder contribuir, e aquele que já contribuiu está atento registrando por meio da escrita a sua contribuição. Desta forma, cada um estará envolvido no assunto e participando ativamente. Feito isso o professor poderá compor o texto utilizando todas as contribuições. Para isto, o professor precisa somente criar um blog para estas interações e habilitar o “anônimo” no comentário devendo cada aluno assinar a sua contribuição. Veja que desta forma o professor não precisa criar e-mail e nem cadastrar o aluno na ferramenta.  O professor pode, usando a mesma dinâmica, trabalhar com alunos das séries iniciais em que poderão escrever o próprio nome e o nome de alguns colegas de classe, de seus familiares,  aprendendo a usar o teclado e a distinguir a letra maiúscula da minúscula.

O professor de História poderá disponibilizar no post do blog um texto sobre algum episódio histórico, e pedir para que cada aluno escolha atuar como sendo um dos personagens envolvidos se manifestando, através dos comentários, como se estivesse participando do desenrolar deste fato. Exemplificando: se o professor estiver trabalhando a Revolução de 32 poderá dividir a sala em dois grupos em que um representará Minas Gerais e o outro São Paulo e ambos escolhem os personagens envolvidos. O professor poderá ser Getúlio Vargas e deve incitar para que os personagens representem, desde o início, os principais fatos que culminaram na Revolução de 32. O aluno para se manifestar terá que conhecer a história e isto lhe motivará a pesquisar e se apropriar dos motivos e ações ocorridas para se debater dentro do contexto. A mesma estratégia pode ser usada pelo professor de Literatura em que os alunos podem representar poetas e escritores de uma determinada fase justificando os motivos e inspirações que levaram os artistas a produzirem suas obras culminando com a sua apresentação e sua repercussão. O professor de Geografia poderá escolher um tipo de paisagem a ser estudada e cada aluno será um componente representando um tipo de solo, um animal da fauna local, uma vegetação da flora local, um tipo de clima e todos passam a interagir no blog, montando com suas características, a paisagem em destaque.

E assim sucessivamente podendo, o blog, ser utilizado por todas as disciplinas.

O Blog pode também ser utilizado como Blogquest utilizando as propriedades da WebQuest e disponibilizando, nos comentários, cada uma das vivências, como se fosse um diário de bordo, inclusive suas impressões sobre o produto final que deverá ser apresentado em sala de aula. Há também o Blog Projeto em que cada uma das etapas também é socializada com os colegas através dos comentários. O Projeto pode, inclusive, ser interdisciplinar, envolvendo tanto vários professores quanto várias salas de aula, ou até mesmo, duas ou mais escolas.

E você, o que achou do que expus aqui neste artigo? Você concorda? Discorda? Concorda em parte?

Deixe registrado aqui o seu ponto de vista e contribua também para que a escola passe a usar a tecnologia de forma pedagógica estimulando em seus alunos as habilidades e competências fundamentais para a época que estamos vivendo.

Aguardo o seu comentário.

Abraços

Cybele Meyer

13 thoughts on “Educação tem que usar tecnologia. Mas como?

  1. Cara Cybele,
    Bastante sensato o seu texto. A minha pergunta sempre foi a seguinte: como dizer ao professor que ele “tem que usar blogs e outras coisinhas” se ele mal sabe ligar o pc? Como o professor vai usar as redes sociais com seus alunos, se ele está fora de todas e não tem interesse algum em entrar, pois considera tudo isso uma grande bobagem? Na primeira vez em que sugeri isso na escola, perguntaram-me, com ar desolador, se isso não daria muito trabalho. Um colega nosso deixou no grupo uma frase ótima: “O professor precisa aprender a fazer bem o feijão com arroz”. Isso me lembra uma charge que vi outro dia no Google+: a professora levara os alunos a uma aula no meio da floresta e, ao invés de mostrar as árvores à turma, mostrou uma imagem no laptop.

    Cybele Reply:

    Olá Andrea, tudo bem?

    Por todos estes pontos que você mencionou é que percebemos o quanto o assunto é polêmico e como o uso da tecnologia na educação é desconhecido. Quando nas formações o professor me fala que aprender dá trabalho e que ele não tem este tempo, confirmo que o trabalho existe no primeiro contato, no segundo o trabalho já é menor e assim sucessivamente até facilitar totalmente o seu cotidiano.
    O exemplo que você cita de mostrar a floresta no computador deixa claro a visão do ser humano de sempre querer substituir os recursos e não o de ter mais um recurso para somar. Por isso que também sou a favor de aprenderem bem o “arroz com feijão” só que usando a tecnologia 🙂
    Adorei seu comentário e poder dialogar com você.
    Seguimos em contato.
    bjs

  2. Ótimo, Cybele!!
    Infelizmente a gente continua precisando ensinar as “receitas” sobre como usar as Tics, não é?
    Bjs

    Cybele Reply:

    Olá Fátima,
    Infelizmente mesmo!
    E mesmo assim a resistência ainda é imensa.
    Mas seguimos sem desanimar. 🙂
    Obrigada pela visita e pelo comentário.
    beijinhos

  3. De que o aluno precisa que o professor fale a mesma linguagem dele… Qual linguagem é essa? A maioria dos ‘jovens’ também não domina as TICs.

    Que o professor precisa utilizar a tecnologia como veículo de interação… Legal!

    Que as aulas serão muito mais motivadoras usando a tecnologia;
    Que esta geração é tecnológica e que não se interessa por “cuspe e giz”. Ok! Mas os mecanismos cognitivos que necessitam ser mobilizados para ‘aprender’ continuam os mesmos, não importa meio utilizado.

    Que o professor não se dispõe a aprender a usar a tecnologia. Baseado em que é feita essa afirmação???

    Cybele Reply:

    Olá Prof. Almir, tudo bem?

    Obrigada por visitar o Educa Já! e por interagir sobre o texto.
    Estes pontos que você salientou não são falas minhas e sim um apontamento sobre artigos, matérias, entrevistas e tantos outros que tomamos conhecimento todos os dias sobre a necessidade da Educação integrar o uso da tecnologia. Foi justamente embasada nestes comentários que redigi o texto abaixo. Tanto não é fala minha que está isolado do corpo do texto. Sou formadora de professores e vivencio quase que diariamente o empenho e dedicação que eles disponibilizam para aprender a utilizar a tecnologia com foco pedagógico. Jamais me dirigiria aos professores desta forma.
    Peço que, por favor, leia o texto novamente e se esta interpretação dúbia permanecer me comunique para que eu possa alterá-lo.
    Obrigada por contribuir para que este espaço se torne mais enriquecido.
    Abraços e volte sempre.
    Cybele Meyer

  4. Olá Cybele.
    Achei muito interessante o seu texto e nos leva a refletir: Como usar recursos tecnológicos se muitas das nossas escolas ainda não tem um computador, e quando tem “um” é de uso administrativo. Como acessar as redes se não temos acesso nas escolas?
    Talvez não seja a realidade de todas as regiões do País, mas como gestora da rede pública de ensino posso garantir que esta é a realidade de muitas escolas.Como o professor pode sentir estimulado a usar aquilo que não está disponível?
    Vamos acreditar que em breve nossos alunos sejam inclusos neste mundo tecnológico e que nossos professores lutem por isso.
    Valeu colega!

    Cybele Reply:

    Olá Mara, tudo bem?

    Perfeita a sua colocação.
    Quantas escolas lutam por instalações decentes, pela constância da merenda, e tantos outros problemas tão primordiais que acabam deixando de lado o tópico tecnologia na educação.
    Porém, acredito eu, que atrás de medidas que integrem o uso da tecnologia venham as melhorias tão necessárias.
    Integro o Projeto UCA e tenho viajado por diferentes lugares do Brasil, e as escolas que participam do Projeto, que são 300 espalhadas por diferentes cantos do Brasil, muitas já obtiveram grandes melhorias justamente em razão disso. A partir do momento que a escola integra o Projeto ela tem que propiciar condições para que o mesmo caminhe. É por esta razão que as autoridades unem forças providenciando o que se faz necessário.
    Assim que o Projeto UCA atender todas as escolas públicas, tenho fé que mudaremos a realidade minimizando as diferenças de possibilidades existentes entre os estados brasileiros.
    O importante é não jogarmos a toalha.
    Super obrigada pelo seu comentário. Ele abrilhantou o nosso espaço.
    Volte sempre!
    Abraços
    Cybele Meyer

  5. Querida amiga

    O uso da tecnologia
    é sem dúvida um caminho
    sem volta e um desafio
    para quem educa.

    Penso que a cada ano,
    aprenderemos
    a equilibrar
    o tradicional com o novo,
    pois independente
    do caminho escolhido,
    o professor e a professora,
    serão sempre,
    a referência maior
    de uma sala de aula.

    Viver é sentir os sonhos
    com o coração.

    Cybele Reply:

    Meu querido amigo Aluisio,

    Que delícia de surpresa!
    Como sempre suas palavras são sábias.
    Vieram abrilhantar o nosso espaço.
    E arrisco, espelhado na sua última frase, dizer que o professor planta os sonhos no coração para serem vividos.
    beijinhos e volte sempre!
    Cybele

  6. Olá Cybele, 🙂
    Apreciei o post. Várias leituras sobre o contexto.
    Tenho comigo que as rupturas que emergem do uso das tecnologias a favor dos processos de ensino e aprendizagem começam a ocorrer e alcançarão mais e mais atores sociais. 🙂
    O que pontua sobre a falta de mais aportes teóricos para engenharmos novas práticas, mais concatenadas com a Era Digital, vejo meio assim.
    A literatura voltada a pesquisas e práticas na educação online é vasta mas carecemos de mais para a educação ‘presencial’ com uso das TICs.
    Parabéns e obrigada!
    Grande [ ]!

  7. Professora, gostei das suas sugestoes em relação ao blog como ferramenta pedagogica, tenho mais de trinta e cinco anos de caminhada na educação.Nao tenho habilidade e preparo para manusear os recursos tecnologicos na sala de aula, porem quero aprender. Estou terminando um curso de especialização em gestao e docencia universitaria como parte da minha formação continuada. O meu grande desafio é realizar o meu trabalho de conclusao do curso com a TEMATICA O USO DAS TICs NA SALA DE AULA NO ENSINO SUPERIOR. Eu poderia realizar esse trabalho em areas que domino, e optei por esta que preciso utilizá-la para enriquecer as aulas e ensinar os alunos a usar a TIC em beneficio da sua aprendizagem gostaria de sugestoes para o meu trabalho. Tenho a pretençao de delimitar meu trabalho em algumas TICs; cMaTools que sao os mapas conceituais, o blog, Videos de curta duração, e realidade virtual. Obrigada aguardo sugestoes de bibliografia e material, para o meu trabalho.

    Cybele Reply:

    Olá Irondina, tudo bem?

    Obrigada pelo carinho do comentário e por acompanhar o Educa Já!
    Contamos com a sua presença também neste ano de 2013.
    Tudo de bom!
    abraços
    Equipe Educa Já!

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