Meu amigo imaginário

Quem tem filho pequeno sabe bem do que estou falando, pois crianças entre 3 e 5 anos têm seu apogeu nos diálogos com o amigo imaginário. Muitas dão até nome e conversam com tanta frequência, com tanta naturalidade e intensidade que acabam deixando seus pais preocupados.

Antigamente as pessoas atribuíam a este comportamento das crianças a capacidade de conversar com “espíritos” de outra dimensão e, por esta razão, muitas mães tentavam bloquear esta fase impedindo que estas conversas acontecessem. Outras ficavam bravas e até castigavam seus filhos com medo de que outras pessoas presenciassem e viessem a discriminá-las. Porém esta é uma fase muito saudável, muito rica e importante para a criança, pois é uma estratégia de organização de pensamento. Na verdade ela está “conversando” consigo mesma, porém como temos sempre que dar uma justificativa às ações, explicamos que ela conversa com um amigo imaginário.

Está certo que muitas crianças batizam este amigo imaginário dando mais veracidade, mas o que ocorre é que a criança está aprendendo a lidar com diferentes sentimentos como raiva, medo, alegria, insatisfação e é justamente através deste diálogo que ela consegue compreendê-los. É como se ela, através deste personagem, desse vida a um destes sentimentos e conseguisse compreendê-lo melhor.

Este comportamento também é muito importante para o desenvolvimento da criatividade no faz-de-conta onde ela pode ser a mãe imitando sua mãe, como pode ser a professora se ela estiver na escola como também pode ser a Barbie, a Poly ou quem mais ela quiser ser. Enquanto está representando estes personagens ela pode exercer ações como mandar, brigar, ensinar com total liberdade coisa que não acontece na vida real.

Nós, adultos, também nos pegamos falando sozinhos. Na verdade estamos refletindo em voz alta e já não usamos o “amigo imaginário” como justificativa. Quando refletimos somente em pensamento “voamos” algumas vezes para outros assuntos que nada tem a ver com o pensamento inicial. Já quando refletimos em voz alta estes pensamentos seguem uma linha de raciocínio que nos firma, como uma âncora, no foco não deixando que nos distanciemos com tanta facilidade.

Nas situações em que a criança com mais idade da indicada acima é repreendida pelos pais em razão de ter feito alguma “arte” e vai para seu quarto chorando, normalmente ela vai “reclamando” em voz alta. Esta é uma forma de reflexão sobre o episódio acontecido. Ela ao falar em voz alta esta refletindo sobre a ação dela e a “contra-ação” dos pais e é desta forma que ela consegue analisar e ter uma visão ampla interiorizando o ocorrido.

Então vocês podem me perguntar como devem agir diante desta situação. Eu respondo que normalmente, sem criticar e nem incentivar instigando para que seu filho convide o amigo imaginário para almoçar ou qualquer outro tipo de reforço.

Este é um momento do seu filho(a) e você deve respeitar sem interferir.

Os pais só devem se preocupar quando a criança valoriza demais a existência deste amigo deixando de lado os amigos reais ou quando justifica todas as suas ações como sendo realizadas pelo amigo imaginário.

Já ouvi relatos de mãe que quando manda o filho juntar os brinquedos ele coloca a culpa no amigo imaginário dizendo que só ele brincou e por isso não irá juntar. Os pais neste caso devem ser manter atentos para que o filho não se acostume a sempre se apoiar no “amigo imaginário” deixando de assumir responsabilidades. Isto começa a acontecer quando a criança tem 4 anos ou mais. A partir desta idade as crianças começam a ter maior compreensão das coisas e a tendência é o amigo imaginário ir desaparecendo.

Ter amigo imaginário faz parte da imaginação das crianças e não da dos pais, portanto não recrimine, mas também não incentive.

E você tem alguma experiência para compartilhar?

3 thoughts on “Meu amigo imaginário

  1. Oi Cybele, não resisti quando vc pergunta se temos alguma experiência para compartilhar. Fui professora de uma escola evangélica e nesta convivi com um problema referente à amigos imaginários que um dos meus alunos tinha. Ele era filho único, e sua permissão para brincar com outros amiguinhos era bem restrita pela mãe, que ficara viúva quando o menino tinha apenas 3 anos. Assim,penso eu, (visão leiga no assunto) ele foi se envolvendo cada vez mais com esses amigos. Os amigos imaginários (eram dois)segundo meu aluno, se chamavam Palifitum e Palifitut. A criança, contudo foi proibida pela mãe e pelos pastores e anciões da igreja de se manifestar sobre os mesmos onde quer que estivesse. Então, como não tinha muito entrosamento com os colegas, por vezes encondia-se na sala para brincar com seus amigos. Esse caso foi para mim uma experiência muito conflituosa pois envolvia diferentes visões. A minha, da escola, a da mãe, a da igreja. Foi dificil para mim e para a escola que era mantida pela igreja, mas, que tinha uma visão pedagógica do assunto, contornar a situação.
    Abraços
    Vanda

    Cybele Reply:

    Olá Vandinha, tudo bem?

    Excelente sua contribuição.
    Ela vem enriquecer e muito a nossa postagem.
    Obrigada por participar e continue conosco.
    abraços
    Equipe Educa Já!

  2. Oi, Cybele concordo com seu artigo, não tenho dúvidas que acontece da forma que você retratou. Tive atualmente observando uma criança de nove anos com algumas dificuldades de aprendizagem e durante a aula a mesma compartilhava seu material com outra pessoa em um diálogo constante,mas pouco conversa balbucia muito. Depois de uma série de entrevista com professores, pais e coleguinhas os mesmos revelaram que ela conversa,gesticula, organiza o material, separa a parte do outro.Tive acesso a alguns relatórios médicos e a mesma encontra-se com uma idade cronológica nesta faixa etária.Seria este o caso? Quantos aos adultos você acredita ser normal e ou necessário?

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